8.4.06

Saber dizer

Dizem-me que está lá fora um dia lindo de sol. Dizem-me que há crianças que estão na rua para o seu primeiro passeio, velhos que saem à rua sem saberem que é pela última vez. Dizem-me que, ao espelho da fantasia, há mulheres sós que se maquilham para ninguém, homens, na rua da amargura, que fumam solitários cigarros, em cafés esvaziados e sem razão. Dizem-me, enfim, que há sempre uma janela aberta na esperança de cada primavera. Dizem-me que logo vem a noite. Dizem-me que eu já não deveria estar aqui.

7.4.06

A decadência das convicções

Não sei que dura religiosidade, acre misticismo, adocicado paganismo recolhi aqui, neste momento ortodoxo de uma festa que sempre e deixou indiferente. Cresci a celebrar o Natal e as prendas, a desconsiderar a Páscoa e o seu folar. Depois, era o receio das amêndoas e dos dentes podres. Hoje, na decadência das convicções, tudo sentido de entre o que havia para sentir, idos mesmo os próprios dentes, secas as esperanças na salvação, é apenas uma fotografia. Vejo-os, fiéis e convictos virando-me as costas, como merece a minha danação.


4.4.06

Vida de lagarta

É o museu da seda, em Soufli. Chega-se aqui fazendo caminho pela linha do caminho de ferro. Pé ante pé por sobre as chulipas, ao fim de umas horas as pernas tremem, descontroladas, de cansaço. Só a macieza do lugar a adoçar-nos os sentidos, o odor das amoreiras a acariciar-nos as narinas, a beleza dos corpos engalanados a acicatar-nos a imaginação compensam o esforço. Há quem faça a viagem pela estrada, mas não ao mesmo lugar.

2.4.06

A lamúria contida

A esta hora, indiferentes a outras obrigações se não de a jantar o que calhar e dormir quando vier sono, há seres humanos para quem o único horizonte é o azul dos céus, o único enigma o aparente sem fim dos rios. Trancado no que chamamos de vida civilizada, hoje domingo, nem nisso penso nem no que aqui escrevo, para que não pareça que me lamento com isso e se irritem mais comigo e com estes dissolventes carpidos.

1.4.06

A mala posta

Quebradiça loiça, exposta ao sol, absorvia refractária o calor solar daquela manhã de Verão. Estávamos tão longe de tudo que uma simples estação de correios eram trinta quilómetros a pé. Naquele dia eu decidira-me a telefonar. Esperava paciente a minha vez, a central manual a aguardar acesso à rede. De súbito, quando menos esperava, consegui-se ligação. Era ainda no tempo dos infinitos repetidores, a voz reflectida de «relais» em «relais», o tiquetactear de mecânicas engenhocas. «Um momento, disse-me a familiar operadora, Lisboa está em linha». Segurei nervoso o auricular. A meu lado um velho gritava ao bocal, como se para um interlocutor inexistente, do qual nem o eco lhe chegava. A chamada, entretanto, caíu. Tentamos amanhã, ou mando um postal. Afinal, daqui a doze dias estará aí.

30.3.06

Uma lembrança, se faz favor


Houve já aqui um tempo de suspiros e águas correntes, amores venais e ilusões de ternura paga. Houve já aqui paixões de aluguer, carícias encomendadas, suspiros exagerados. Tudo aqui se simulou e nada parecia proibido. Houve já aqui um tempo em que homens e mulheres se entregaram uns aos outros em cadeias de união carnal, num deboche demencial, que nenhuma lei parecia impedir. É um dos lupanares de Pompeia, o bordel que a lava conservou. Passo aqui indiferente à ladainha do guia turístico, neste fim de tarde, perto da hora do jantar. Lá dentro nada há e ninguém ficou. Estão todos mortos, e não há sequer testemunhas para o recordar. A luxúria, a agonia do prazer infindo, os sentidos exaustos e o corpo insaciável, hoje é isto, este momento petrificado, imóvel, estático, simbolicamente vazio, um ponto de passagem num passeio, o hotel à vista, meus senhores obrigado pela visita, é só o que a vossa generosidade me quiser dar.

29.3.06

O saciar da carne

Há, no imediato horizonte além do qual tudo me é desconhecido, a presença brumosa da ruína, a incerteza da subsistência, a dúvida sobre a própria permanência. Há no lugar distante que a vista alcança, o saciar carnal das saudades de terra. Aproximámo-nos então, recolhendo cautelosamente o pano. Ao ver o meu reflexo na água, vi na agonia daquele espelho, uma imagem de estranheza, como se exilado de mim, vivesse em terra estrangeira. Puxados a remos, acostámos exaustos.Um cenário de terror aguardava-nos então. Nada sobrevivia naquele inferno; corpos estropiados, semeados a esmo, marcavam, num rio de sangue e de vísceras estraçalhadas, a passagem do homem por ali.

26.3.06

Domingo de manhã


Houve um tempo em que, por ser domingo, eu sonhava com a tarde no cinema, em que, sendo domingo, o almoço era melhorado, em que, apesar de ser domingo, não íamos à missa nem ao futebol. Houve um tempo em que, ao ser domingo era um dia diferente, festivo, familiar.Houve um tempo que aos domingos eu estava contente. Hoje, sentado aqui com os papéis amarrotados desta escrita, devorado pelo trabalho que me espera e diminuído pela culpa de o recusar, já que é domingo, nem sei o que sinta, o que faça ou o que diga. Amanhã é segunda feira. Tudo passa, até o tempo em que havia domingos.

24.3.06

Os passos erráticos

Não sei se sou o criador do que me surge: às vezes é só uma luz irradiante, uma nesga de céu, o horizonte possível para além de uma curva em estrada desconhecida.Não sei se não sou, eu próprio, o que me surge. Espero-me, pois, aguardando-me, diluído na bruma, indiferente ao norte perdido, aos passos erráticos do que me chega.

23.3.06

O medo das formigas

Lembro-me que era miúdo e que íamos para ali de farnel. Hoje, na confusa memória e na má fotografia não dá para se perceber, mas está lá tudo: as migalhas do folar, o termos do café, o medo que eu tinha das formigas, a gorda Angelina a arfar de cestos, o meu tio Saúl a dormitar ao sol. No mais morreu tudo. O lugar é uma urbanização de casas indiferenciadas para gente anónima e eu próprio já nem saberia ir lá.

20.3.06

Irreconhecível criatura

Depois de tentar, nos últimos dias, por todos os meios e mais alguns colocar aqui fotografias, sem as quais este blog não tem sentido nem vida, e após recusas e falhanços, esperanças e desilusões, estava hoje disposto a não começar o meu dia sem vir aqui dizer ao menos esse «não consigo!». Os deuses tiveram pena! Pronto, sou eu: há cinquenta e um anos atrás, como se nota, feliz sem saber o mundo sem sentido e sem vida que me esperava. Carneiro que sou, astrologicamente pelo menos, estou quase a comemorar o facto, dando conta que não sucedeu, que ainda é a melhor forma de se celebrar uma tal coisa.

16.3.06

A falésia

Tínhamos chegado nesse Verão talvez mais cedo do que em todos as outras vezes antecedentes, ou então terá sido num daqueles fins de semana que terminam no pesadelo do domingo à noite, a agressividade do regresso, o insuportável do arrumar sacos, malas para carregar, o não haver jantar que apeteça, as crianças chorosas de sono, os pais desiludidos do esforço, o amanhã ser segunda-feira. Lembro-me do exacto momento, o do reencontro com a brisa marítima, o acre marítimo daquele lugar. Era o tempo da melancolia sem motivo, das férias por obrigação, da família como atrelado. Voltei hoje aqui, fotograficamente apenas, tolhido de desejo, esquecido da saudade.

11.3.06

À mercê do capim

Era eu, branco, e o Jéjé, mulato, filho do funileiro Lucas. O Lucas deve ter morrido, o Jéjé nem sei se vive, eu ando por aí. Um dia andava eu miúdo e uma miúda como eu, brincando no meio do capim. Eu era tão miúdo que me metia com uma miúda no meio do capim, para brincarmos aos jantarinhos para as bonecas. Jantarinho foi esse que aquilo largou a arder. Era eu, branco, o Jéjé, mulato, pretos de fuligem, a tentar apagar capim a arder. A Luizinha fugiu para casa com medo de apanhar. Estamos todos, uns velhos e outros mortos, um destes dias à mercê de sermos engolidos pelo crescer o capim. Talvez sobejem as bonecas da Luizinha. Hoje já ninguém brinca aos jantarinhos, hoje ninguém pega fogo ao capim.

8.3.06

Altos voos

Compreendam a única coisa que me irritou quando morei aqui, naquela noite em que vim às escuras ao quintal: o tempo que me levou o voltar para casa, depois de seis meses no hospital e uma semana a subi-la, a escada do regresso.

A carreta das almas

Besta de carga e animal de tiro, à força de braços e de dentes rilhados, rangendo a ossada e babando-se do esforço, ei-lo, excrecência de humano atrelado à funerária carreta do seu ganha-pão. Chovia copiosamente e da janela larga do esplêndido hotel, rimo-nos todos, turistas de ocasião, imenso e a bom rir. Eu tirei esta fotografia. Na aparência, ele seguiu o seu destino de fome, na realidade persegue-me de cada vez que o olho e me revejo, a alarvice de mim na indiferença por ele.

3.3.06

De pé, ó vítimas da fome!

A meu lado duas anafadas matronas soltavam gritinhos nervosos, entreolhando-se carregadas de rubores e sub-entendidos. Tímidas, refugiando-se nos refolhos do seu recato, um par de pálidas gémeas bexigosas, faziam com a amplitude da mão o gesto obsceno de lhe medir o tamanho, e adivinhar a potência. Foi na excursão à Capadócia. Não que eu lá tenha estado, mas só porque poderia ter acontecido.

1.3.06

O ciclo vital

Seja o cheiro fétido a lenha podre, a urina ressequida de um gado que se aninha, encurralado nos confins húmidos deste casebre, aquecendo-se ao próprio bafo. Seja a memória de uma infância a pé descalço, alimentado a casqueiro duro e a uma malga de caldo em que boiava uma, com sorte duas, rodelas de um chouriço bedunguento. Seja a miséria do local e a fealdade da recordação. Seja esse o chiqueiro a que chamo as minhas origens. Na porta aberta, na lenha empinada a um canto, no bolor e tudo o que dele exala, eu sinto o húmus de onde saímos, a putrefacção em que nos tornaremos.

28.2.06

Esgravatando com as unhas

Admito que esteja em escombros, concordo que está em ruínas, mas é à mesma uma prisão. Poder ser apenas um sonho mau, um péssimo momento, o fastio de um dia sem sair da grilheta das obrigações, do encarceramento dos deveres. Mas nesta vida celular, de rotina confinada, a mesma vontade de cavar um túnel, comum a todos os prisioneiros. Mesmo que não leve a qualquer saída, ocupa o espírito com a ideia da libertação.

27.2.06

O azul ou o branco

Teria sido num tempo em que as tardes eram suficientemente extensas para que se pudesse dormir, tranquila, a sesta, as noites tão grandes que era possível, sem esforço, ficar a ler. Teria sido num tempo em que numa daquelas janelas eu vi o alvorecer de uma ideia e p0r causa dela decidi não regressar. Dias depois zarparia o último navio e no vazio do porto eu compreenderia, enfim, o mundo que me restava. Teria sido num tempo em que se poderia optar por uma viagem ou por uma permanência. Hoje, olhando-à à fotografia da casa, de cuja janela tudo me sucedeu, hesito se é o azul ou o branco o automóvel que lá deixei. Não sei em nome de que ideia, por causa de que ilusão, ou a caminho de que erro, mas parti, do mesmo porto, num outro navio, a caminho do mundo em falta, a parte restante de mim.

23.2.06

E depois do adeus

Trancado, noite após noite, nos esconsos de um escritório, imagino que em redor exista o azul dos céus e o verde dos mares. Visto o mundo porém, desta nesga obtusa de janela, pelo intervalo esboroado das persianas, resta-me uma pálida estrela cintilante, tão longínqua e empalidecida que se diria poeira esquecida no firmamento. A esta hora, no silêncio morno dos desertos e na atroar galcial das cidades haverá por certo alguém para quem a vida, na sua pacatez, equivalerá ao mar da tranquilidade. Acenar-lhes-ia se os visse, se os sentisse ou se na sua longínqua diferença neles me reconhecesse. Volto porém para dentro, negando-me essa familiaridade. A esta hora absurda, vista a janela, o obtuso do intervalo e a palidez da poeira, reentro em mim e comigo adormeço.

8.2.06

A esquina da memória

É só mesmo porque, ao dobrar a esquina, nos cruzamos com a memória. Depois vem o quotidiano e soterra-nos com os pormenores do que fica. Podem por isso demolir o prédio, varrer a esquina, pode mesmo acabar o cinema e eu ter sido um dos últimos a passar por ali. No dia em que acabar a Europa, terá ficado, deste cinema, a esquina e o jardim ali tão perto, o da Parada.

4.2.06

O desespero em estremocense


Não, eu não queria estar aqui num hotel trancado, confinado a um quarto, amarrado a ter de trabalhar. Não, eu não queria que fosse isto, por ser um fim de semana. Eu queria, que fosse todos os dias e assim acontecesse pela beleza do que se vê, pela paz que se sente, pelo desejo que se tem. Eu sei que é Estremoz, eu sei que hoje é sábado, eu sei que já não posso dormir mais, eu sei que não quero ir.

1.2.06

Uma folha


Hoje é apenas uma folha amaralecida num álbum desarrumado num sótão. Mas houve um momento em que, por um instante, estes homens suspenderam a sua vida para um instantâneo, como se a eternidade os recolhesse. Hoje estarão todos mortos, e ninguém chorará já convictamente a sua perda. Não sei se algum deles foi o que trouxe a fotografia, ou se ela veio no lote das que se vendem por aí, ao molho, pelas feiras de antiqualhas. Está escrito a lápis que tudo isto foi em Nankin, não sei como, nem com quem, nem sequer porquê.

28.1.06

O dia da visita

Talvez por ser sábado de manhã, hoje quando passei, não havia ninguém na rua. E, no entanto, o prédio ali estava. Por detrás da sua majestade caduca, ainda restavam centenas deles, aqueles que a família não queria ou já nem família teriam. Os vidros partidos, o reboco esboroado, no interior um frio tão glacial como o que lhes vai na alma. Amanhã, por ser domingo, talvez venha o sol e uma ou outra visita apareça com um farnel e umas revistas, para os entreter por uns momentos. Vão-se depressa, as crianças fartas de velhos, os adultos com medo de o serem. Hoje, depois de eu ter passado, e porque é sábado, não ficou ali mais ninguém.

26.1.06

A mala por fazer

Às vezes é só o desejo ferroviário de partir. O colocar a mala na rede por cima do assento. Esperar que ninguém nos acompanhe na carruagem. Abrir o jornal e adormecer, na ronronante viagem. Num qualquer apeadeiro, perdidas já as saudades de tudo, e ainda sem saber para que destino, mirar todos e cada um dos que entram a bordo, como se houvesse neles uma razão que a nós nos falta. Às vezes é só ficar eternamente no cais, a mala por fazer. um itinerário pelos carris do sonho pelas estações da ilusão.

24.1.06

O sobejo da velha mala


Muitas vezes é como um favo numa colmeia, onde se acotovelam gerações. A promiscuidade dos sons, a repugnância dos cheiros, o desventrar de todas as intimidades. Os ganidos do que dói, o estretor de quando se morre, o soluçar baixinho os males de amor, tudo se sabe e nada se evita. De quando em vez vaga um cubículo, o último porque alguém se jogou pela janela abaixo. Morava ali, incógnito, há poucos meses. A renda, penso, ficou por pagar, a única mala que tinha como coisa sua, de tão velha, ninguém a quis.

23.1.06

Mayday, mayday


Às vezes é haver Deus, ou ir-se sentado no banco de trás, por ter chegado ao aeroporto no último minuto. Outras vezes teria sido bem melhor ter terminado tudo ali. Ficou o sobejo desta fotografia: os amigos espantam-se em larga ênfase, as tias falam em milagre, com uníssona devoção, e uma pessoa, mudando de assunto, vira a página, já esquecido, quase, de como foi.

22.1.06

A restituição dos afectos

Eu sei que é apenas um momento desta rua e um seu segmento. E sei que nesta vida por viver será um dia seguramente um hiato vazio na minha memória em erosão. Esta noite, porém, tendo por companhia esta intragável aguardente, e um salmão fumado, coisa que sempre detestei, talvez nem as saudades de casa me restituam os afectos. Acordei há pouco. Era noite. Aqui, aliás, é sempre noite. Somos quatro neste hotel. Um de nós nunca sai do quarto. Se já morreu, foi-se silenciosamente.

17.1.06

A decência de ficar

Chegámos tarde com a noite presente em todos os escaninhos do lugar. Jantou-se ensonadamente, dormiu-se, enfim, um sono profundo. Ao amanhecer, ali estava, a memória presente em cada canto. Foi só o tempo de descer a rua. Esta fotografia mostra o que poderia ter sido viver decentemente a vida, decidindo ficar.

16.1.06

O estreito dos Dardanelos

O desejo de não regressar! Amanhã podia expedir-se daqui uma carta e em duas linhas nem dizer porquê. Só quem viu uma anoitecer assim entende o que é o desejo de não voltar. Prolongar no tempo, restringir no espaço, permanecer aqui, por motivo indefinido e singular. Há na noite um odor embriagante, uma aura de milagre. Quando com o anoitecer definitivo, já nada se puder ver, sente-se ainda, adivinha-se sempre.

15.1.06

O raio verde

O momento é fugaz. A ciência explica-o pela refrangência da atmosfera. Mas é da excepção que nasce a maravilha. Exactamente no ponto, no lugar e no instante em que o ocaso coincide com o horizonte, surge, inesperado, o raio verde.Desaparecida a sensibilidade a todas as cores, ela fica, esperançosa, verde, a cor remascente, o símbolo renovado do dia de amanhã. Transidos de comoção, guardávamos em silêncio o segredo do que víramos, as mãos dadas, a alma a chorar. Hoje é só uma fotografia num álbum, a memória longínqua dos amores de verão.

11.1.06

Bem-vindo, pois!


Há, nesta masmorra, um túnel que eu escavo diariamente ansiando por uma fuga. Começou por ser uma ideia, depois um sonho. Um dia acordei e era uma ambição, nas noites frequentes de insónia, um pesadelo. Há nesta ideia de escavar daqui a minha saída, uma ocupação contra a loucura, a esperança num dia depois. Esta manhã, porém, vazio de mim e ausente de tudo, aqui precisamente neste canto de confluência do onde durmo com a latrina em que nos tornámos, descobri a mágoa de um achado, o de que o túnel, esse subterrâneo nocturno cavado com as minhas mãos, rasgado com estas unhas e perseverado com os próprios dentes, na loucura demente de o ter feito, desembocara onde começara. Estava de volta aqui, muitos anos depois.

Uma ideia apenas


Às vezes é só mesmo a vertigem da ideia, a de uma doença como solução. Confinado a uma cama, recluso numa enfermaria, eis aí a justificação plausível para se poder parar. E, no entanto, quantas vezes nem esse favor se recebe da vida. Morre-se num dia ocupado, deixa-se o embaraço da agenda a meio, a vergonha de compromissos por cumprir, a fatalidade das responsabilidades por honrar. Aos amigos, mesmo, quantas vezes calha mal o dia do funeral. E o corpo, resto inerte do que houve, a aguardar numa capela de igreja porque é mais rápido assim, o serviço mortuário religioso está mais à mão. Às vezes é só mesmo uma ideia, mas a vida vertiginosa em que se vive, nem lhe dá tempo para viver, mortos que estamos e de cansaço.

9.1.06

Arco de Baúlhe


A linha marca o intervalo e a importância. Cheguei num pouca-terra interminável, o vento gelado a entrar por todas as frinchas de uma carruagem de museu, a locomotiva aos sacões. A arrastar-se, qual chiante carroça de bois, o comboio, vagaroso, entrou finalmente na diminuta estação. Um friso de casinhas, caiadas a branco, desfilam-me agora pela janela, uma sucessão de nomes conhecidos: «Senhoras», «Homens», o armazém dos sobressalentes e por fim, edifício principal, gabinete do chefe da estação e, eis, «Arco de Baúlhe», completo enfim o ritual familiar da entrada na gare. Cheguei. Não é, como da outra vez, o correio da noite, comboio fantasma do arranca e pára, viajante nocturno, visitante preguiçoso de todo o lugar ermo e apeadeiro vazio; nem o rápido das cinco, o «foguete» da minha infância, o «Sud Express» da minha juventude, o «Alfa» dos dias de hoje. É assim uma coisa intermédia, o comboio regional que vai dar entrada na linha número três. Desço, comigo apenas uma mala camba e um saco plástico amarfanhado, o resto do improvisado almoço. Meu pai espera-me na estação. «Estás mais magro», diz-me ao ver-me. Sorrio como a dizer que sim. Sem mais uma palavra seguimos calados, um ao lado do outro: não temos mais nada, nem mais ninguém de quem falar. Ele sabe que não tornaremos a ver-nos. «Voltas amanhã?», perguntou, como se o não soubesse, definitivamente.

A casa de chá


Como se contadas, a uma e uma, as folhas depositadas carinhosamente, a água fervida por duas vezes e o bule, enfim, escaldado primeiro, purificado depois e arrefecido até estar tão morno como quando tudo começara. Um lento cerimonial, acompanhado de bolinhos de massapão. Reina no lugar um silêncio pacífico, povoa-o uma semi-treva dormente. É a casa de chá. As portas eternamente abertas a quem entra, as janelas disponíveis à Natureza. Lugar da paz celestial, lembro-me do odor, como se esta velha fotografia mo devolvesse e com ela a memória de um nome, Oolong, o chá do dragão negro.

7.1.06

A misericórdia do esquecimento



Hoje a Natureza reocupou o seu lugar, por sobre a selvajaria dos homens: a água lavou o sangue, o silêncio calou os estrondos dos canhões. Reflectida na água, a ponte é mais do que o lugar, é o momento. Talvez nesta tarde gélida o mundo pudesse suspender-se por um instante, sobre o rio Drina e sua ponte. Para um homem só, debruçado no parapeito, olhando o ondulado tacteante da água, a História não passou por aqui. Quando souber da carnificina, fará por esquecê-la. A memória dói, os deuses misericordiosos abreviam a dor.

A beleza comovente


Primeiro, foi o homem que poderia ter sido o seu, a morrer-lhe, antes de que ao menos a ideia se tivesse concretizado. Depois, foram, inevitavelmente, os parentes, os amigos, os conhecidos. Ficou a casa. Com a idade, cada vez menos ágil, restou o quarto, enfim esta cama. À medida que o dinheiro rareava, foram-se indo as criadas. Restava eu, quando tinha tempo e nunca tinha tempo. Não fosse uma vizinha, haveria dias em que nem o almoço lhe chegaria. Encontraram-na um dia, oitenta anos de uma beleza comovente, uns olhos azuis límpidos de paz. Os cães ladravam furiosamente, correndo enlouquecidos, pela quinta. Um ar de tragédia e de morte povoava o lugar. Hoje é um hotel de charme. Indiferentes, esquecidos, tudo esquece, há quem se ame nesta cama, nesta mesma cama.

5.1.06

Uma mancha na consciência


Instalávamo-nos ali no Verão. Sentávamo-nos numa das mesas do fundo. Por eu ser muito pequeno, os criados traziam uma almofada para poder chegar à mesa. Lembro-me dos imensos guardanapos, densos de goma, os copos de pé alto, em cristal, os talheres pesados, com um toque de prata. Nesse tempo um jantar obrigava a «hors-d'oeuvre», dois pratos, fruta e doce. Ah! E sopa, e como eu odiava sopa. Uma vez, sem querer, porque nessa idade todas as asneiras são sem querer, e por detestar sopa de ervilhas, a má vontade em a comer deu num pingo a macular a alvíssima toalha. Ainda hoje ele me pesa na consciência. É numa das mesas do fundo deste magnífico Hotel das Termas. Olhando para a fotografia, acho que a vejo, nítida, vergonhosa, eterna, como se aquele mundo de excelência nunca mais tivesse sido perfeito, a partir daí.

4.1.06

O colar verde

Aglomeram-se e amontoam-se debaixo de improvisados toldos, protegendo-se de inesperadas chuvas, formigando um surpreendente comércio. De quando em vez há um que grita ladrão. Nada sucede: uma breve correria, rápida e inconsequente, como se o ritual exigisse de cada um uma réplica animada na defesa do que é seu. A um canto uma velha desdentada sugere-me, com requebros de oferta, uma amarelada farinha ou uns peixes esquálidos de secos enfiados num pau. Nego-me à velha, mas para me enfeitiçar num colar de bagas esverdeadas de pedras que não sendo preciosas são precisosidades de cor. Não serve para nada, nem tenho a quem o ofereça, é só por ter estado aqui e para que, olhando para ele, fosse como se aqui tivesse estado.

3.1.06

Uma questão de tempo

Não é o estar a nevar, é a sensação de subitamente o mundo ter desaparecido em redor, refugiando-se no conforto dos seus interiores. Ausente tudo, o que resta é o momento instantâneo que vale a pena ser vivido. Não se sobrevive muito tempo cá fora, mas morre-se mais depressa lá dentro.

2.1.06

O sol e a cor dos céus

Vim a este lugar, em nome da minha memória. E olho para isto, a fachada em ruínas, como hoje me vi, reflectido num vidro de uma montra. A vida encarrega-se, mesmo quando se não viveu, de marcar a sua passagem. Há, na parede lateral desta difícil tristeza, o reflexo do sol, carcomendo a cor, que nos destroços do que deixaram os dias de erosão e as noites de rapina, ainda era o momento celestial que restava.

1.1.06

O universo de certezas

Combinou-se que seria ali. Por momentos julguei tê-la perdido, as ruas semelhantes, labirínticas, antigas, cruzando-se como num infinito de possibilidades enganadoras. Penso que, apesar de desorientado e incerto, cheguei muito antes da hora. Ao fundo, albergadas pelas árvores miúdas, umas mesas de ferro de uma improvisada esplanada, proporcionavam o lugar da espera. Estava sol e apetecia ficar prolongando o fruir da manhã. Chegou enfim, minutos depois do momento combinado, um ser de tal forma feminino que faria qualquer sentir-se homem. Por um segundo o universo imobilizou-se, o meu mundo de certezas vacilou. Aquele parecia o local e o tempo. Só que, afinal, nada era comigo. Na mesa do lado, precisamente a que ficava ao lado de mim, alguém se levantou, abraçando-a e seguindo, incertos mas decididos, esvairam-se no horizonte vazio do que me restou.

31.12.05

Uma luz pardacenta

Um vento cortante saía pelas frinchas da porta e por um vidro meio quebrado de uma das poucas janelas. Em frente a mim uma mulher de idade infinitamente antiga dormitava, anichando ao peito um saco de pano do qual emergia, altiva, a cabeça de um galo. Imperial, os olhos amarelos de desdém, fitava-me, como num desafio. Em frente a nós, comboios jiboiantes, de mercadorias, em horário nocturno, cruzavam-se sem parar. Tudo parecia como nos confins do mundo. Entráramos para ali pelas quatro e meia da tarde e já era noite. O livro que tentara ler, há muito o esquecera, cego por uma luz pardacenta de suja, que mal nos alumiava. Faltava apenas chegar, atrasada sem se saber quanto, a automotora que nos tiraria para destinos mais gelados, mais incógnitos do que até aqui.

30.12.05

O céu possível

A loja de doces era do outro lado da rua. Bolinhos pequenos, secos, revestidos a amêndoas, recheados de mel. Acompanhavam-se com chá de menta. Um odor refinado, fumegante, de tom azul, filtrado por uma luz difusa, sugere um interior. Misturam-se odores, cores e sabores. A loja de doces é o céu possível, num canto da terra.

29.12.05

Um céu diferente

Há no mundo da infinita sede e da absoluta desolação, o tempo ido de uma causa, de uma ideia, de um sonho. Às vezes é apenas uma folha de um livro tirado de um armário envidraçado, folheado no conforto do bar de um hotel, longínquo no espaço, perdido no tempo, fazendo tempo para o jantar. Quando, em 1926, escreveu «Os sete pilares da sabedoria» T. E. Lawrence disse que até então tinham vivido todos de qualquer modo sob um céu indiferente; um dia o sol fermentou-os. É isso que que eu vim dizer aqui, agora que é noite e um céu pujante de estrelas se abate sobre nós.

26.12.05

Vida de jogador


Entra-se por um portão normalmente aberto e de um dos lados da breve alameda, segue um renque de casinhas, todas contíguas, como se bungalows fossem. Nesse lugar antigo a História sedimentara-se, envelhecendo a euforia do futuro, dando consistência lógica a todo o passado. Eu estava ali de férias, em busca de nada, a caminho para sítio algum. Chegara por acaso, por um instinto do momento. O local chama-se Blenheim, fica não muito longe de Oxford. Ao fundo da rua desse hotel, poque é de um pequeno hotel que eu falo, virando-se à esquerda, é o monumental palácio do Duque de Marlborough, onde nasceu Winston Churchill. Lembro-me dos fins de tarde, quando, por ser Verão, a noite custava a chegar. Foi aí e então que eu li «O Jogador» do Stefan Zweig, e a história do preso que joga xadrez contra si próprio e sucumbe, enlouquecido, a essa impossibilidade lógica. Poderia ficar-se ali o resto da vida. As razões que o impediram, naquilo que orgulham, entristecem. também.

A curta vida da glória imortal

O primeiro prémio Nobel da Literatura foi atribuído em 1901 a um tal Sully Prudhomme, de seu nome verdadeiro René Armand François Prudhomme, poeta parnasiano e que na Academia Francesa ocupava a cadeira número vinte e quatro. À data Leo Tolstoy estava ainda vivo. Eis o que lembra Louis Menand num artigo sobre os prémios literários, seu sentido e limites. Trata-se da economia global da literatura, do modo mágico de converter um mau produto numa excelente venda. Vem no «The New Yorker», foi lá colocado hoje, dia a seguir ao dia de Natal. Quanto ao Prudhomme é aquele senhor em cima, com barbas e ar austero. Foi operário e amanuense de notário. A pertença à Academia dá-lhe direito a ser considerado um «imortal», embora já poucos se lembrem disso.

O ser e o nada

«La vraie philosophie se moque de la philosophie». A frase foi dita por René Descartes e vem citada num artigo sobre a tradução americana de um livro que tem todo o ar de ser simultaneamente lamentável e apetecível e que trata do grave problema de saber como é que um homem de meia figura, feio, quase cego de um olho, de mau feitio e que ainda por cima não lavaria os dentes conseguia seduzir sexualmente toda uma corte de raparigas jovens, belas e por vezes inteligentes. A obra chamava-se no original «Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir and Jean-Paul Sartre». A editora é a Harper Collins. O autor da recensão chama-se Leland de la Durantaye, o qual é professor assistente na Universidade de Havard sobre Literatura inglesa e americana. Vem tudo no The Village Voice. Pelos vistos, como lembra o articulista, nas maquinações vis e predatórias, Simone de Beauvoir teria a sua parte. A inteligência, tal como o pau de cabinda, é, pelos vistos, um afrodisíaco, a filosofia um estimulante.

25.12.05

O velho carrascão


A loja vendia de tudo e tudo prometia. Tudo, diga-se, no campo do magnético. Era a pulseira magnética que, por um dólar, o livra miraculosamente do stress, o cobertor magnético que, mais dispendioso, lhe tira, logo na primeira noite, as dores de costas e outras do esqueleto. Mas, de toda aquela parafrenálida sugestiva e sobretudo prometedora, o ponto máximo era o «Perfect Somelier», uma coisa simples, magnética também, como tudo o que por ali se amontoava. A fórmula é simples, o resultado garantido: mete-se dentro da maquineta uma garrafa de vinho corrente, daquelas da lojeca da esquina e em menos de uma hora o líquido envelhece anos e anos. «Sirva no seu jantar uma reserva especial, daquela garrafeira com que sonhou», era a ideia. A razão científica é que o magnetismo elimina os taninos. Se não for verdade, podia ser. Os incréus que leiam.

3.12.05

O mar Aral


Como num pesadelo, o mar sumira-se e a erva crescera no seu fundo. Sal e ferrugem corroem hoje a paisagem. Uma sede de vida surge-nos, erráticos viajantes, súbita e necessária, secando-nos as entranhas. A ideia de uma terra finita, desolada, precária ofusca a paisagem, anoitece-nos o sentir. Um infinito mundo por viver, uma vida inteira desfeita em inutilidades, cobre-me a alma de pó.