13.6.06
Eu vi um sapo
10.6.06
O horizonte lunar
Enfeitiçada lua em noite quente, ei-la a inundar ventres de loucuras, transtornando as mentes já despertas para a vida. Surgiu-me, assim, inesperada, como se o acaso negro de uma doença ou o presságio de um sentimento amável. Nunca mais da mesma janela eu te verei, ó lua, minha companhia desta noite. Silenciosos, os pássaros, aninhados na sua plumagem, nem ousam. Ao longe a cidade, agacha-se como se para dormir. Um resto de luz despede-se em azul. Enfeitiçada, louca e transtornada, a lua inicia a sua subida, rápida, na parábola infinita dos céus. Rezaria, sabendo, pelo bem de todos os que são bons. A silhueta da tristeza marca-me o horizonte do impossível.Mulher em casa de homens
9.6.06
O lugar da indiferença
6.6.06
Agora que o dia cai
5.6.06
A esplanada da vida
2.6.06
A ira dos céus
29.5.06
QTA, anule a mensagem anterior
27.5.06
O homem em azul
26.5.06
A ave do paraíso
Aguilhoante sentimento de ausência, entre a ânsia de regaço e as bicadelas pecaminosas da falta. Ali estava, diante de mim, ao virar de uma esquina, no final de um longo trajecto, de sala em sala, galeria em galeria, secção após secção. Esquálidas virgens medievas, reprimidas monjas holandesas, debochadas flamengas de dentes cariados, tinha visto todas. A piedosa mãezinha, a sonhadora donzela, a maléfica rainha. Só que chegara, entretanto aqui. A portentosa natureza em seu esplendor frutífero, a ave rapace em seu apetite voraz, tudo ali me era dado, como se ao alcance de um gesto, à espera do atrevimento das mãos. Foi então que o porteiro nos fez sentir que eram cinco horas. Hora de fechar. Amanhã abrimos pelas dez. Uma boa noite para todos.
25.5.06
O velho Chevrolet
22.5.06
A mãe Natureza
14.5.06
O indiferente Buda
11.5.06
A multiplicação do eco
Barricara-se ali quando a fui buscar. Entre entulho e fermentações muitas de dejectos vários, um cheiro pestilento atroava-me os sentimentos. O próprio silêncio fazia eco, multiplicando-se entre si, nada mais havendo do que o vazio. Não havia canto de parede que não estivesse escrito, palavras empedernidas de raiva, rasgadas com as unhas a sangrarem-se contra o cimento. Estava só. Pressentindo ao que eu vinha, olhámo-nos longamente. As lágrimas escorriam-lhe pela face. Perguntei-lhe, como se a medo, se queria vir. Respondeu-me, como se envergonhada, o murmúrio de um sim. Saímos os dois. Nada havia ali que lhe valesse a pena trazer consigo. A casa ainda lá está. Outros a habitam: a família sucessiva dos desesperados, de quem nos esquecemos no dia a dia formigante das nossas vidas. Eu de insignificante gravata ao pescoço, a pastinha ridícula na mão. 6.5.06
Para o dia da mãe
3.5.06
Um deus por haver
1.5.06
A invenção da memória
30.4.06
Um céu em azul
Vinha eu de passeio por aqui e surgiu-me de súbito a ideia de aqui viver. Entre árvores e outros verdes. Com a hera a trepar-me pelas pernas, os pássaros a cantarem-me na cabeça. Abrindo de par em par a janela da alma e vendo, enfim, um céu em azul.29.4.06
Acordar cedo
24.4.06
A irrequietude do olhar
23.4.06
Um assunto já visto
19.4.06
Um número num catálogo
16.4.06
O lugar e a tarde
15.4.06
Uma partida de cartas
14.4.06
Gloria!
12.4.06
A individualidade do eu
9.4.06
Plaza Colón
8.4.06
Saber dizer
7.4.06
A decadência das convicções
4.4.06
Vida de lagarta
2.4.06
A lamúria contida
1.4.06
A mala posta
Quebradiça loiça, exposta ao sol, absorvia refractária o calor solar daquela manhã de Verão. Estávamos tão longe de tudo que uma simples estação de correios eram trinta quilómetros a pé. Naquele dia eu decidira-me a telefonar. Esperava paciente a minha vez, a central manual a aguardar acesso à rede. De súbito, quando menos esperava, consegui-se ligação. Era ainda no tempo dos infinitos repetidores, a voz reflectida de «relais» em «relais», o tiquetactear de mecânicas engenhocas. «Um momento, disse-me a familiar operadora, Lisboa está em linha». Segurei nervoso o auricular. A meu lado um velho gritava ao bocal, como se para um interlocutor inexistente, do qual nem o eco lhe chegava. A chamada, entretanto, caíu. Tentamos amanhã, ou mando um postal. Afinal, daqui a doze dias estará aí.
30.3.06
Uma lembrança, se faz favor
Houve já aqui um tempo de suspiros e águas correntes, amores venais e ilusões de ternura paga. Houve já aqui paixões de aluguer, carícias encomendadas, suspiros exagerados. Tudo aqui se simulou e nada parecia proibido. Houve já aqui um tempo em que homens e mulheres se entregaram uns aos outros em cadeias de união carnal, num deboche demencial, que nenhuma lei parecia impedir. É um dos lupanares de Pompeia, o bordel que a lava conservou. Passo aqui indiferente à ladainha do guia turístico, neste fim de tarde, perto da hora do jantar. Lá dentro nada há e ninguém ficou. Estão todos mortos, e não há sequer testemunhas para o recordar. A luxúria, a agonia do prazer infindo, os sentidos exaustos e o corpo insaciável, hoje é isto, este momento petrificado, imóvel, estático, simbolicamente vazio, um ponto de passagem num passeio, o hotel à vista, meus senhores obrigado pela visita, é só o que a vossa generosidade me quiser dar.
29.3.06
O saciar da carne
26.3.06
Domingo de manhã
24.3.06
Os passos erráticos
23.3.06
O medo das formigas
Lembro-me que era miúdo e que íamos para ali de farnel. Hoje, na confusa memória e na má fotografia não dá para se perceber, mas está lá tudo: as migalhas do folar, o termos do café, o medo que eu tinha das formigas, a gorda Angelina a arfar de cestos, o meu tio Saúl a dormitar ao sol. No mais morreu tudo. O lugar é uma urbanização de casas indiferenciadas para gente anónima e eu próprio já nem saberia ir lá.20.3.06
Irreconhecível criatura
Depois de tentar, nos últimos dias, por todos os meios e mais alguns colocar aqui fotografias, sem as quais este blog não tem sentido nem vida, e após recusas e falhanços, esperanças e desilusões, estava hoje disposto a não começar o meu dia sem vir aqui dizer ao menos esse «não consigo!». Os deuses tiveram pena! Pronto, sou eu: há cinquenta e um anos atrás, como se nota, feliz sem saber o mundo sem sentido e sem vida que me esperava. Carneiro que sou, astrologicamente pelo menos, estou quase a comemorar o facto, dando conta que não sucedeu, que ainda é a melhor forma de se celebrar uma tal coisa.16.3.06
A falésia
11.3.06
À mercê do capim
8.3.06
A carreta das almas
3.3.06
De pé, ó vítimas da fome!
1.3.06
O ciclo vital
28.2.06
Esgravatando com as unhas
27.2.06
O azul ou o branco
23.2.06
E depois do adeus
8.2.06
A esquina da memória
4.2.06
O desespero em estremocense
Não, eu não queria estar aqui num hotel trancado, confinado a um quarto, amarrado a ter de trabalhar. Não, eu não queria que fosse isto, por ser um fim de semana. Eu queria, que fosse todos os dias e assim acontecesse pela beleza do que se vê, pela paz que se sente, pelo desejo que se tem. Eu sei que é Estremoz, eu sei que hoje é sábado, eu sei que já não posso dormir mais, eu sei que não quero ir.
1.2.06
Uma folha
Hoje é apenas uma folha amaralecida num álbum desarrumado num sótão. Mas houve um momento em que, por um instante, estes homens suspenderam a sua vida para um instantâneo, como se a eternidade os recolhesse. Hoje estarão todos mortos, e ninguém chorará já convictamente a sua perda. Não sei se algum deles foi o que trouxe a fotografia, ou se ela veio no lote das que se vendem por aí, ao molho, pelas feiras de antiqualhas. Está escrito a lápis que tudo isto foi em Nankin, não sei como, nem com quem, nem sequer porquê.
