Vinha eu de passeio por aqui e surgiu-me de súbito a ideia de aqui viver. Entre árvores e outros verdes. Com a hera a trepar-me pelas pernas, os pássaros a cantarem-me na cabeça. Abrindo de par em par a janela da alma e vendo, enfim, um céu em azul.30.4.06
Um céu em azul
Vinha eu de passeio por aqui e surgiu-me de súbito a ideia de aqui viver. Entre árvores e outros verdes. Com a hera a trepar-me pelas pernas, os pássaros a cantarem-me na cabeça. Abrindo de par em par a janela da alma e vendo, enfim, um céu em azul.29.4.06
Acordar cedo
24.4.06
A irrequietude do olhar
23.4.06
Um assunto já visto
19.4.06
Um número num catálogo
16.4.06
O lugar e a tarde
15.4.06
Uma partida de cartas
14.4.06
Gloria!
12.4.06
A individualidade do eu
9.4.06
Plaza Colón
8.4.06
Saber dizer
7.4.06
A decadência das convicções
4.4.06
Vida de lagarta
2.4.06
A lamúria contida
1.4.06
A mala posta
Quebradiça loiça, exposta ao sol, absorvia refractária o calor solar daquela manhã de Verão. Estávamos tão longe de tudo que uma simples estação de correios eram trinta quilómetros a pé. Naquele dia eu decidira-me a telefonar. Esperava paciente a minha vez, a central manual a aguardar acesso à rede. De súbito, quando menos esperava, consegui-se ligação. Era ainda no tempo dos infinitos repetidores, a voz reflectida de «relais» em «relais», o tiquetactear de mecânicas engenhocas. «Um momento, disse-me a familiar operadora, Lisboa está em linha». Segurei nervoso o auricular. A meu lado um velho gritava ao bocal, como se para um interlocutor inexistente, do qual nem o eco lhe chegava. A chamada, entretanto, caíu. Tentamos amanhã, ou mando um postal. Afinal, daqui a doze dias estará aí.
30.3.06
Uma lembrança, se faz favor
Houve já aqui um tempo de suspiros e águas correntes, amores venais e ilusões de ternura paga. Houve já aqui paixões de aluguer, carícias encomendadas, suspiros exagerados. Tudo aqui se simulou e nada parecia proibido. Houve já aqui um tempo em que homens e mulheres se entregaram uns aos outros em cadeias de união carnal, num deboche demencial, que nenhuma lei parecia impedir. É um dos lupanares de Pompeia, o bordel que a lava conservou. Passo aqui indiferente à ladainha do guia turístico, neste fim de tarde, perto da hora do jantar. Lá dentro nada há e ninguém ficou. Estão todos mortos, e não há sequer testemunhas para o recordar. A luxúria, a agonia do prazer infindo, os sentidos exaustos e o corpo insaciável, hoje é isto, este momento petrificado, imóvel, estático, simbolicamente vazio, um ponto de passagem num passeio, o hotel à vista, meus senhores obrigado pela visita, é só o que a vossa generosidade me quiser dar.
29.3.06
O saciar da carne
26.3.06
Domingo de manhã
24.3.06
Os passos erráticos
23.3.06
O medo das formigas
Lembro-me que era miúdo e que íamos para ali de farnel. Hoje, na confusa memória e na má fotografia não dá para se perceber, mas está lá tudo: as migalhas do folar, o termos do café, o medo que eu tinha das formigas, a gorda Angelina a arfar de cestos, o meu tio Saúl a dormitar ao sol. No mais morreu tudo. O lugar é uma urbanização de casas indiferenciadas para gente anónima e eu próprio já nem saberia ir lá.