31.7.07

A mão indefinida

Debruçado sobre si, como se em amurada de navegante barco num gesticulado adeus ao cais, olhava, míope, para cada um dos interstícios daquele enigmático móvel que era agora, mais do que a decoração única do seu local, a única companhia do seu ensimesmamento.
Com o tempo dedicara-se-lhe.
Na aparência exterior uma caixa, de antiquíssima madeira, lenho de velha árvore, uma de tantas de milenária floresta, oriunda do desconhecido, ali chegada Deus sabe por que mãos humanas, poupada, o Diabo ignora a que riscos da existência animal.
Sobrevivera, pequeno cofre e minúscula arca, couraçando-se naquele exterior paralelipipédico, ferragens cobreadas a dar-lhe austeridade, a ligeira ferrugem nas dobradiças a criar a ilusão de que era essa a causa da sua impenetrabilidade.
Agora estava ali, num lugar estranho, longínquo, ante umas mãos de si ciosas, percorrendo-lhe, como se a um labirinto sensível, os tímidos caminhos do que pareciam modos de lhe aceder, a inesperada forma de despudorar definitivamente o seu segredo.
Debruçado sobre si, estava um homem, navegando o mar azul de um adeus marítimo, a mão indefinida para o cais da vida a que jamais regressaria, míope de desejo, ela como companhia e essa noite a sua única decoração.
Ninguém sabe como se deu o milagre, ou o dia milagroso em que ocorreu o regresso aos vinte anos da ilusão, o coração apressando-se ante aquela reencontrada memória.
Ali estava, porém, e com ela a doçura passada e com o seu regresso o inesperado rubor da lembrança.
Ser-se novo e viver com isso a loucura entranhada de um mundo por haver, ser-se novo e ficar-nos na retina o momento único em que o mundo parece exemplo gritado aos outros, ser-se novo e ser a nossa nudez da alma tão altiva que nem o despido corpo nos envergonharia tanto. Ser-se novo, enfim, e termos de nós o anseio e dos outros a esperança.
Ninguém sabe como se deu o maravilhoso momento em que a antiquíssima caixa, de milenária madeira, sussurrou o milagroso modo de ser possível conhecer de si o que nem ela sonhava ser possível dar-se a conhecer.
Esgotados de nocturno cansaço, o mundo deu com eles, dias depois, o sol a pique, ciosos do caminho sensível da sua memória comum, a espuma do mar navegado encharcando-lhes a alma, esperançosos no que não fora, ansiosos pelo que não poderia ter sido.
Debruçado sobre si e a si dedicado, um homem escrevera este bilhete, sem razão, nem motivo, ou sequer o pretexto de uma intenção.
Lido por tantos outros, nenhum jamais soube como foi possível. O instante em que se dera o espasmo rouco da criação perdera-se no tempo, esgotara-se no espaço, findara-se aqui, neste momento de lembrar-te, nesta forma de esquecer-me.

22.7.07

Um doloroso silêncio

«Quando falar ou estar calado já é indiferente», é melhor já nem falar. Aprendi-o esta madrugada, ao ver o «Cinema Paraíso», compreendi-o depois. No olhar de espanto de uma criança, o mundo da ilusão, na escuridão de um cego, o mundo da fantasia. «Agora que ceguei vejo melhor», diz Alfredo, o velho projeccionista da aldeia de Giancaldo. O filme é um hino heróico ao amar impossível, os beijos cortados.

10.6.07

O acaso e a necessidade

Para os que se impressionam com o acaso, às vezes o olhar para uma fotografia é apenas o pretexto para uma pessoa se espantar. Aconteceu hoje, ao tirar da estante, sem razão, uma biografia do escritor Joaquim Paço d'Arcos, escrita por Álvaro Dória, em 1962, editada pela defunta Arcádia.
No livro consta uma foto, na qual o escritor está acompanhado por sua mulher, Maria da Graça de Spencer Moura-Brás.
A coincidência está em que esta senhora teve a gentileza de aparecer em Sintra, quando ali lancei o livro sobre a morte do actor Leslie Howard, porque o conhecera em Lisboa, quando ele aqui se deslocou em 1943, antes de partir para o voo fatal.
A coincidência está em que o biógrafo escreve que o casal regressou da sua viagem de núpcias às Ilhas da Madeira e Açores no dia 25 de Março de 1949, precisamente aquele em que nasci.
A coincidência está em que eu tinha estado a ler, em diagonal, uma recensão a uma biografia de Walt Disney, precisamente quem aparece na fotografia e a dedica, autografando-a, ao casal português.
É caso para dizer que o acaso ainda é, com os inesperados que me traz, o que me anima e me convence na predestinação para a alegria.

15.5.07

O mundo de Sophia


Um homem chega a casa, moído de trabalho e sabe que o espera, na sua casa ou vindo da casa do vizinho o som de um jogo de futebol. Um homem vai ao café e corre o risco de a conversa ao balcão ser a propósito de futebol. Um homem foge para a praia e tem fortes probabilidades de acertar-lhe no toutiço uma bola de futebol.
Mas um homem, de meia idade, daqueles que a vida moldou nos tempos da lei seca do recato e do pudor, ao saber das notícias desgraçadas deste mundo infeliz, dá de caras com esta: Sophia Loren faz strip-tease se o Nápoles subir de divisão.
Conta-se, como verdade ou anedota, que a senhora, em cujo corpo o Senhor prodigalizou a sua generosidade, foi recebida pelo Papa João XXIII, em audiência. Vestida com um profundo decote, do qual saltavam, em hossana, como num Gloria in Excelsis Deo, portentosos frutos, quais os da árvore do Paraíso, ajoelhou-se, em genuflexo respeitoso para beijar o Pontifício anel. Antecipando a visão tentadora da carne e a danação do pecado que ali se lhe abria, lúbrica, à visão, Sua Santidade não se terá contido e semi-cerrando os olhos, murmurou um «ai, meu Deus!» de embaraço reprovador!. Diz-se que do alto da nave uma voz cava e gutural, a voz profunda do Todo-Poderoso, se fez ouvir num «Obrigado, João, por me teres chamado!».
Um homem chega a casa, moído de trabalho, e, perdido na memória da sua meia-idade, dá graças a Deus pelo que leu no jornal, liga a TV, na ânsia de que o Nápoles ganhe, hoje já!

Contos do desaforo

Não sei como conseguirei conviver com este novo ser que se albergou no interior do meu conturbado viver, flor de ficção poética no casco envelhecido da árvore das obrigações. Para já decidiu falar através deste livro, como um sonâmbulo, liberto das conveniências. São contos. Se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume. Não sei como será nem como foi. Está aí, inevitável e embaraçoso.

13.5.07

Vinte anos

Quando se tem vinte anos a vida parece infinita, aos cinquenta e oito parece eterna. É nesta perenidade do aguentar que reside o segredo do tempo circular. Daqui a vinte anos, estando por cá, falamos. Até lá, boa viagem a todos!

5.5.07

O homem aparente

Há um momento na vida em que uma pessoa olha para si e vê que houve um tempo que já se foi. Depois, é o problema do ter valido ou não a pena, o haver ou não muito a esperar do que resta. Claro que quando se tem entusiasmo, tudo isto se ilude. A agitação simula actividade, esta, vivida frenéticamente, alegria de viver. Se me permitem falar de mim, não me queixo. Ser fictício, gostava só de estar um pouco menos gasto, com mais cabelo e ir mais vezes ao barbeiro, por nada de essencial, apenas por uma questão de aparência!

25.4.07

O Cosmonauta

«Eis o Vademecum do Cosmonauta,uma autentica jóia eis a verdadeira caixa de pandora! Este espaço virtual achado pelo explorador, permite-lhe beber do seu tesouro, e juntamente com o seu criador e os eventuais leitores irá entrar num campo de descoberta, povoado pela imaginação e pela criatividade.», Hugo Barreiros escreveu no seu novo blog «O Cosmonauta». Voga pelo espaço sideral, da terra alheado, imerso no mar da sua imaginação delirante.

5.4.07

A terra dos meus

Vista daquela enregelada janela, em que o próprio vidro parecia gelo, a montanha abraçava-nos, amiga, envolta em bruma e escondida na distância. Naquele dia, sentados à mesa, a toalha dos domingos, o guizado dos dias de festa, o nosso pai dividia entre nós o pão comum.
Sentido hoje, memória de um tempo feliz, desse dia ficou apenas esta fotografia.
Olho para ela com a nostalgia de quem se procura. Não mais lá voltarei, à terra dos meus onde nada me pertence e a tudo sou alheio.

5.3.07

A Casa dos Artistas


Um pedaço incerto de papel, o escorrer da tinta, os primeiros passos na arte. Criou um blog, uma janela aberta sobre o mundo, para mostrar o que faz e chamar outros para que o sigam. Chamou-lhe, sedento de um lar, a casa dos artistas.

18.2.07

Uma filha, um mundo

Vive, enfim, só. Mandou-me uma mensagem com o número do telefone. Não telefonei, para que aprendesse, atónita, o que é alguém começar por si. Ontem falámos, brevemente. Tinha ligado a televisão para sentir companhia. Aquém do fosso da separação, um pai fingia-se indiferente, o coração apertado.

28.1.07

Em estado puro

Há dois anos espantou um alfarrabista de rua ao interessar-se por um livro sobre Picasso e ao insistir comigo para que lho comprasse. Hoje, um dia gélido, ao passarmos pela mesma rua, pelo mesmo alfarrabista, este lembrou-lhe a história que não mais esquecera. «Talvez a sensibilidade pura das crianças entenda o essencial daquela forma de ser arte», arrisquei com a minha lógica redonda de adulto. «Não é por isso», respondeu-me, amigável, como quem não quer melindrar o pai, «é só mesmo porque gostei». Chama-se Afonso. Oxalá se conserve assim, em estado puro.

21.1.07

Uma vida que nasce

Há no momento mágico em que uma mãe volta a sê-lo, através da filha que criou, o indizível da Natureza a cumprir-se. Uma só coisa pode exprimir o sentimento de gratidão das almas circunstantes, ante este renovar-se contínuo da nossa vida: um infinitamente amigo silêncio, o nada dizer, por estar tudo dito. Há no momento único em que, atónitos, sobrevivemos no futuro, a magia de um milagre, o inesperado de uma oração. Parabéns às duas, à filha e a sua mãe.

8.12.06

O meu Hugo!

Eu vim aqui dizer ao mundo inteiro que hoje é o último dia em que este jovem é menor. Amanhã entra na categoria do «senhor Hugo». Um pai cumpre-se quando um filho segue o seu caminho. Foi sempre assim e assim será. Boa sorte, pois, meu rapaz! E não te esqueças, já agora de arrumar o quarto e a loiça da cozinha! Não é por nada. É só para eu me orgulhar de ti!

Não digas nada!

A livraria era um labirinto de acasos. Encontrar um livro um exercício de persistência, olhos atentos, em cada recanto, uma surpresa. De encantamento em encantamento, reencontrei-a, quase inacessível, ali, a Dalila Pereira da Costa e a sua «Ladainha de Setúbal», além uma linha de verso, o «trago no sangue o mistério daquele resto de estrada que não andei», nos «Versos Quase Tristes» do Sebastião da Gama. Ia já de saída, o guarda-chuva quase na mão para enfrentar o real exterior e nele a morrinha que anunciava a noite, quando, de entre os livros me perguntaram, como se ao advogado se dirigissem, ao descobri-lo: «o senhor tem um caso cá em Setúbal?». Ia a responder que «sim, com a Serra-Mãe», quando um sentimento íntimo de acanhamento adolescente me sussurou ao ouvido: «não digas nada».

28.11.06

Um anseio de vida


Encontrei-a, amarelecida, esta fotografia. São os que me deram o ser. Ao microfone o meu pai, em frente a minha mãe. Vinte e cinco anos de idade era então apenas o que os separava. Numa insignificante salinha, emitia em onda curta, com dez watts de potência, o CR6RE, na banda dos quarenta e um metros e quarenta, na frequência dos 7 245 kilociclos. Eram os dias da rádio, os discos pedidos, tocados ainda a setenta e oito rotações. Olhando para o que a vida fez destas ondas de esperança, eu decretaria, se tal me fosse possível, o absurdo do que sucedeu. Neste final de dia, olhando para o céu a arrefecer, nocturno, tento encontrá-las, perdidas no éter, as palavras ditas a este microfone, num tempo em que a ideia de mim era apenas uma esperança de vida, um anseio de viver.

2.10.06

As nuvens

Houve um tempo de Verão em que para ele o céu teve nuvens e houve um tempo em que com elas lhe chegava, tímida, a lua do entardecer. Depois, tudo se dissipou. Hoje deu que chovia torrencialmente, ante a indiferença de um dormir extenuado. Eis o Outono e com ele o cair, uma a uma, das folhas da ilusão.

8.7.06

Uma vida por viver

Houve um tempo em que todas as escolhas eram possíveis, o mundo dos outros podia não ser o meu. Depois, o tomar de empréstimo vidas alheias, olhar literariamente a melancolia da vida por uma janela fechada. Houve um tempo em que eu tive cinco anos. Hoje, aos cinquenta e sete, vivi a vida que havia para viver.

25.6.06

O anjo caído

Loucos desejos, crucificadas condições. Na hora da oportunidade, reclina-se o homem sobre o manto do pecado. Não fosse ele simulacro ridículo do divino, ousaria o inferno e cairia. Assim entrega-se molemente, tentando manter-se de pé.

21.6.06

Minhau!

Musculado, musculoso, imponente, majestoso. Em torno de si, o arquétipo do irrealizável, um estrepitar de fantasias de vigor e de potência. Creio que era porteiro de bar pela noite, dormia pela manhã, ocupava a tarde em musculação. Uma americana esfaimada levou-o como berloque. Hoje é um penderucalho, entre chás e biscoitos. Vai ao super e arruma camisolas de lã entre rendinhas femininas. Talvez faça miau. Já nem sei.