13.5.09

Entreaberta a porta

Hoje vim aqui falar do meu Hugo. Estuda no Arco, pintura e desenho. Um destes dias gabei este quadro. Pressenti em volta um pesado silêncio. Feriu-se-me o coração de pai. Tento ser objectivo e dizer que tem valor. Com convicção. Se apreciar com isenção não é possível a quem é pai, que eu não o seja, mas triunfe a Arte se tiver que triunfar.
Sinto uma interior alegria em hora triste ao ver estes traços. Vou visitá-lo aqui, ao atelier onde esgravata horas a fio. Esta noite gostava de lhe falar das agruras da vida, mas como entristecer um artista, que é luz, alegria, vida? Boa noite, Hugo Bernardo, a vida é bela, as noites lindas, estonteantes...

3.5.09

A longínqua dor

Evanescente, longínqua, por vezes ausente, vivendo só e do resto sozinha, não sei o que pensará deste dia. Resumiu-se em um só filho, do mais esquecida, a tudo indiferente. Hoje é o Dia da Mãe, um instante para se viverem remorsos e tudo aquilo para que um homem nasce.

26.4.09

De passagem

Da última vez que lá tinha estado, de passagem, havia apenas uma pensão e um modesto restaurante. Agora há uma pousada com bastantes estrelas, de que vi o exterior. O lugar é magnífico porque insólito, um vago cheiro sulfuroso perfuma o ar. A cor incendeia os olhos, o vermelho ocre, o cobreado, mais alguns outros anéis do arco-íris, ferruginosos, pétreos, na paleta dos azuis e dos verdes, o negro vulcânico, a cinza, os fundidos no cadinho alquímico da Mãe Natureza. Encontrei agora esta fotografia, que retrata com perfeição a sua solitária grandeza.
É a Mina de São Domingos. Aqui ao lado de mim, na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, há uma colecção de slides. Só pode ver-se através da rede local. Quantos outros ali estiveram, a guardar em fotografias, tão pungentes como esta ou esta, ou tantas mais, a alma envenenada de uma mina abandonada.
Em 1997 Filipe Verde produziu um documentário a que chamou Biografia de uma Mina. Em tempos estudei a La Sabina, a empresa que explorava o minério, por causa de um livro que vou agora começar a escrever. Agora estive ali. De passagem, sempre se passagem, o lugar vive ao abandono dos que passam e só de quando em vez voltam.

13.4.09

O desejo do outro

A foto é fantástica. O que atrai a quem devia ser o foco da atracção. Vê-se e conclui-se que há sempre o desejo ante o que não somos, o apetite pelo que não temos, a fantasia mesmo face ao que não gostaríamos de ser. Esta e tantas outras, controversas talvez, mas não menos verdadeiras e humanamente esclarecedoras, aqui.

12.4.09

A velhice das monarquias

Em Outubro de 1957, a Rainha Isabel II visitou os Estados Unidos da América. Foi recebida pelo Presidente Dwight Eisenhower. A foto ilustra um banquete oferecido em sua honra na Casa Branca. Desde o início do seu reinado em 1952 existiram 11 Presidentes na América. As monarquias envelhecem, as democracias preservam-nas. Eis a foto do último instante, aqui.

29.3.09

A soberba

Estive aqui. Séculos antes de mim os romanos. Depois de todos nós nem sei quem. O lugar chama-se Estoi. A memória não tem nome. Ficou de tudo uma fotografia. Rondei o que resta do torreão. Nos interstícios da argila há o vazio que sustenta a soberba edificação. Até ao céu. Um mundo irredutível soergue-se.

3.3.09

O Livro das Horas

São as horas audíveis, tictaqueantes, as de arrastados momentos e as de fulgurantes instantes. As horas de acordar a horas e as horas de espera. Trabalhar durante horas e estar à espera há horas. É o horário. São os últimos minutos do filme e os segundos de prazer. Os anos de vida. O ter pouco tempo. O acabou-se o seu tempo. São as horas, estas horas.