29.7.08

Dementido

Tendo constado, por eu ter colocado um post com uma fotografia de uma praia, que estaria no gozo de férias algarvias, declaro, para os devidos efeitos e a quem puder interessar, que a foto é da Praia da Torre, na linha do Estoril, como se pode provar por exame ao local, que eu há muito não vou à praia, facto negativo que comprovo por perícia médico-legal à palidez cutânea que exibo sem vergonha e que tenho estado enclausurado em casa a trabalhar, citando como testemunhas os vendedores da frutaria à porta da minha casa, observadores que são das minhas entradas e saídas e do facto público e notório de hoje ter ido comprar um reforço de maçãs para roer enquanto escrevo. Mais declaro que estou o ano todo de férias, para não me aborrecer com o trabalho.

Um camelo na areia

De repente um homem sente vontade de se apaixonar pela praia, olhando para o ridículo da brancura da sua pele, fruto de clausura, de sagração do interior, de se ter aprisionado ao dever de estar só.
Compra então quanto é preciso para ir à praia, mesmo não sabendo já como é que se vai à praia. Ante a própria prateleira os cremes solares e outros bronzeadores, o homem sente-se estúpido, com vergonha de perguntar.
E depois já nem toalha há, emprestam-lhe tudo o mais, talvez chinelos mesmo, por causa da areia, porque ainda há areia na praia, para além de esplanadas cimentadas.
De tudo isso ficou esta fotografia. Não sou eu, apenas a imagem do que poderia ter sido.
Amanhã também é dia. Deus mandou que hoje estivessem 18º graus de manhã e um vento frio para ajudar.

25.7.08

O Rádio Clube

J. B. P. do Amaral quer dizer José Barreiros Pina do Amaral, o meu pai. Foi ele fundador do Rádio Clube de Malanje.
Parte da minha infância foi vivida em torno do Rádio Clube. O indicativo da estação então era outro, o nome o mesmo, o prefixo CR6RE.
Esta madrugada li, a propósito dos pioneiros da rádio: «desse grupo o primeiro foi o Rádio Clube de Malange em 1944, iniciando as emissões com um pequeno emissor feito com peças recuperadas de receptores por António Lisboa Araújo, técnico dos CTT e radioamador de grande prestígio. Esse primeiro emissor, de 50W trabalhava na frequência de 7245 quilociclos por segundo, Ondas Curtas. Foi assinado pelo governador de Província em 14/12/1944 um despacho que criou a Comissão Administrativa com o fim de dar aplicação à importância de 86.862,50 ags, que uma comissão de senhoras angariou em Malange para dar concretização a uma ideia de há muito tempo: a criação de uma estação emissora em Malange. Uma ideia mantida à custa de sacrifícios principalmente de dois dedicados radiófilos que, no seu desejo de dotar a Província com um bom posto de radiodifusão mantiveram em funcionamento, ainda que em condições precárias, o pequeno posto CR6RE. Foram eles José Henriques de Carvalho e José Barreiros Pina do Amaral. No dia 8 de Janeiro de 1945 reuniram em Assembleia Geral os sócios fundadores do Rádio Clube de Malange, a fim de elegerem a Comissão Organizadora, que ficou assim constituída: José Barreiros Pina do Amaral; José Antunes Barata; Manuel Madureira, Armando Silva e José Bernardo, ficando o primeiro como presidente da Comissão e com poderes para representar o Rádio Clube de Malange na Comissão Administrativa nomeada pelo Governo da Província».
Talvez se chame nostalgia a esse sentimento feito de as memórias ecoarem no fundo da nossa sensibilidade. Já em tempos aqui deixei o que me resta desse tempo de lembrança, na forma de uma fotografia. Esta noite, o éter devolveu-me mais uma pouco desses dias da rádio.

20.7.08

Saudades do mar

A natureza abre-se-nos e um mar imenso desagua-nos na garganta. Morre-se de boca aberta de espanto, num espasmo de convulsões, a vida em estertor.
Náufragos pela ânsia de navegar, uma língua de areia tacteia a maciez do céu infinito, os olhos turvos, reviram-se em agonia.
Dir-se-á uma praia, a alegoria líquida de um ventre, o nascer diurno da própria vida. Para uns quantos é uma fotografia. Ainda bem que assim é, tal qual, mesmo nessa simplicidade de memória ausente.