15.5.07

O mundo de Sophia


Um homem chega a casa, moído de trabalho e sabe que o espera, na sua casa ou vindo da casa do vizinho o som de um jogo de futebol. Um homem vai ao café e corre o risco de a conversa ao balcão ser a propósito de futebol. Um homem foge para a praia e tem fortes probabilidades de acertar-lhe no toutiço uma bola de futebol.
Mas um homem, de meia idade, daqueles que a vida moldou nos tempos da lei seca do recato e do pudor, ao saber das notícias desgraçadas deste mundo infeliz, dá de caras com esta: Sophia Loren faz strip-tease se o Nápoles subir de divisão.
Conta-se, como verdade ou anedota, que a senhora, em cujo corpo o Senhor prodigalizou a sua generosidade, foi recebida pelo Papa João XXIII, em audiência. Vestida com um profundo decote, do qual saltavam, em hossana, como num Gloria in Excelsis Deo, portentosos frutos, quais os da árvore do Paraíso, ajoelhou-se, em genuflexo respeitoso para beijar o Pontifício anel. Antecipando a visão tentadora da carne e a danação do pecado que ali se lhe abria, lúbrica, à visão, Sua Santidade não se terá contido e semi-cerrando os olhos, murmurou um «ai, meu Deus!» de embaraço reprovador!. Diz-se que do alto da nave uma voz cava e gutural, a voz profunda do Todo-Poderoso, se fez ouvir num «Obrigado, João, por me teres chamado!».
Um homem chega a casa, moído de trabalho, e, perdido na memória da sua meia-idade, dá graças a Deus pelo que leu no jornal, liga a TV, na ânsia de que o Nápoles ganhe, hoje já!

Contos do desaforo

Não sei como conseguirei conviver com este novo ser que se albergou no interior do meu conturbado viver, flor de ficção poética no casco envelhecido da árvore das obrigações. Para já decidiu falar através deste livro, como um sonâmbulo, liberto das conveniências. São contos. Se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume. Não sei como será nem como foi. Está aí, inevitável e embaraçoso.

13.5.07

Vinte anos

Quando se tem vinte anos a vida parece infinita, aos cinquenta e oito parece eterna. É nesta perenidade do aguentar que reside o segredo do tempo circular. Daqui a vinte anos, estando por cá, falamos. Até lá, boa viagem a todos!

5.5.07

O homem aparente

Há um momento na vida em que uma pessoa olha para si e vê que houve um tempo que já se foi. Depois, é o problema do ter valido ou não a pena, o haver ou não muito a esperar do que resta. Claro que quando se tem entusiasmo, tudo isto se ilude. A agitação simula actividade, esta, vivida frenéticamente, alegria de viver. Se me permitem falar de mim, não me queixo. Ser fictício, gostava só de estar um pouco menos gasto, com mais cabelo e ir mais vezes ao barbeiro, por nada de essencial, apenas por uma questão de aparência!

25.4.07

O Cosmonauta

«Eis o Vademecum do Cosmonauta,uma autentica jóia eis a verdadeira caixa de pandora! Este espaço virtual achado pelo explorador, permite-lhe beber do seu tesouro, e juntamente com o seu criador e os eventuais leitores irá entrar num campo de descoberta, povoado pela imaginação e pela criatividade.», Hugo Barreiros escreveu no seu novo blog «O Cosmonauta». Voga pelo espaço sideral, da terra alheado, imerso no mar da sua imaginação delirante.

5.4.07

A terra dos meus

Vista daquela enregelada janela, em que o próprio vidro parecia gelo, a montanha abraçava-nos, amiga, envolta em bruma e escondida na distância. Naquele dia, sentados à mesa, a toalha dos domingos, o guizado dos dias de festa, o nosso pai dividia entre nós o pão comum.
Sentido hoje, memória de um tempo feliz, desse dia ficou apenas esta fotografia.
Olho para ela com a nostalgia de quem se procura. Não mais lá voltarei, à terra dos meus onde nada me pertence e a tudo sou alheio.

5.3.07

A Casa dos Artistas


Um pedaço incerto de papel, o escorrer da tinta, os primeiros passos na arte. Criou um blog, uma janela aberta sobre o mundo, para mostrar o que faz e chamar outros para que o sigam. Chamou-lhe, sedento de um lar, a casa dos artistas.

18.2.07

Uma filha, um mundo

Vive, enfim, só. Mandou-me uma mensagem com o número do telefone. Não telefonei, para que aprendesse, atónita, o que é alguém começar por si. Ontem falámos, brevemente. Tinha ligado a televisão para sentir companhia. Aquém do fosso da separação, um pai fingia-se indiferente, o coração apertado.

28.1.07

Em estado puro

Há dois anos espantou um alfarrabista de rua ao interessar-se por um livro sobre Picasso e ao insistir comigo para que lho comprasse. Hoje, um dia gélido, ao passarmos pela mesma rua, pelo mesmo alfarrabista, este lembrou-lhe a história que não mais esquecera. «Talvez a sensibilidade pura das crianças entenda o essencial daquela forma de ser arte», arrisquei com a minha lógica redonda de adulto. «Não é por isso», respondeu-me, amigável, como quem não quer melindrar o pai, «é só mesmo porque gostei». Chama-se Afonso. Oxalá se conserve assim, em estado puro.

21.1.07

Uma vida que nasce

Há no momento mágico em que uma mãe volta a sê-lo, através da filha que criou, o indizível da Natureza a cumprir-se. Uma só coisa pode exprimir o sentimento de gratidão das almas circunstantes, ante este renovar-se contínuo da nossa vida: um infinitamente amigo silêncio, o nada dizer, por estar tudo dito. Há no momento único em que, atónitos, sobrevivemos no futuro, a magia de um milagre, o inesperado de uma oração. Parabéns às duas, à filha e a sua mãe.

8.12.06

O meu Hugo!

Eu vim aqui dizer ao mundo inteiro que hoje é o último dia em que este jovem é menor. Amanhã entra na categoria do «senhor Hugo». Um pai cumpre-se quando um filho segue o seu caminho. Foi sempre assim e assim será. Boa sorte, pois, meu rapaz! E não te esqueças, já agora de arrumar o quarto e a loiça da cozinha! Não é por nada. É só para eu me orgulhar de ti!

Não digas nada!

A livraria era um labirinto de acasos. Encontrar um livro um exercício de persistência, olhos atentos, em cada recanto, uma surpresa. De encantamento em encantamento, reencontrei-a, quase inacessível, ali, a Dalila Pereira da Costa e a sua «Ladainha de Setúbal», além uma linha de verso, o «trago no sangue o mistério daquele resto de estrada que não andei», nos «Versos Quase Tristes» do Sebastião da Gama. Ia já de saída, o guarda-chuva quase na mão para enfrentar o real exterior e nele a morrinha que anunciava a noite, quando, de entre os livros me perguntaram, como se ao advogado se dirigissem, ao descobri-lo: «o senhor tem um caso cá em Setúbal?». Ia a responder que «sim, com a Serra-Mãe», quando um sentimento íntimo de acanhamento adolescente me sussurou ao ouvido: «não digas nada».

28.11.06

Um anseio de vida


Encontrei-a, amarelecida, esta fotografia. São os que me deram o ser. Ao microfone o meu pai, em frente a minha mãe. Vinte e cinco anos de idade era então apenas o que os separava. Numa insignificante salinha, emitia em onda curta, com dez watts de potência, o CR6RE, na banda dos quarenta e um metros e quarenta, na frequência dos 7 245 kilociclos. Eram os dias da rádio, os discos pedidos, tocados ainda a setenta e oito rotações. Olhando para o que a vida fez destas ondas de esperança, eu decretaria, se tal me fosse possível, o absurdo do que sucedeu. Neste final de dia, olhando para o céu a arrefecer, nocturno, tento encontrá-las, perdidas no éter, as palavras ditas a este microfone, num tempo em que a ideia de mim era apenas uma esperança de vida, um anseio de viver.

2.10.06

As nuvens

Houve um tempo de Verão em que para ele o céu teve nuvens e houve um tempo em que com elas lhe chegava, tímida, a lua do entardecer. Depois, tudo se dissipou. Hoje deu que chovia torrencialmente, ante a indiferença de um dormir extenuado. Eis o Outono e com ele o cair, uma a uma, das folhas da ilusão.

8.7.06

Uma vida por viver

Houve um tempo em que todas as escolhas eram possíveis, o mundo dos outros podia não ser o meu. Depois, o tomar de empréstimo vidas alheias, olhar literariamente a melancolia da vida por uma janela fechada. Houve um tempo em que eu tive cinco anos. Hoje, aos cinquenta e sete, vivi a vida que havia para viver.

25.6.06

O anjo caído

Loucos desejos, crucificadas condições. Na hora da oportunidade, reclina-se o homem sobre o manto do pecado. Não fosse ele simulacro ridículo do divino, ousaria o inferno e cairia. Assim entrega-se molemente, tentando manter-se de pé.

21.6.06

Minhau!

Musculado, musculoso, imponente, majestoso. Em torno de si, o arquétipo do irrealizável, um estrepitar de fantasias de vigor e de potência. Creio que era porteiro de bar pela noite, dormia pela manhã, ocupava a tarde em musculação. Uma americana esfaimada levou-o como berloque. Hoje é um penderucalho, entre chás e biscoitos. Vai ao super e arruma camisolas de lã entre rendinhas femininas. Talvez faça miau. Já nem sei.

17.6.06

A eternidade em cada instante

Se um homem soubesse o que a vida lhe dá, trazido pelo excepcional do acaso, como a chuva inesperada ou este desejo de precipício, viveria. Em cada dia da sua vida, deixar-se-ia seguir, os ventos alíseos do afecto, a vaga refrescante de um grande mar. Mas um homem não sabe. Só quando se apercebe que teve vinte anos revê a sua vida, mas já viveu. Se um homem soubesse o que é ter por companhia a tristeza aos vinte anos, e ela ficar-lhe, como uma velha fotografia, desbotando-se-lhe no tempo, roubando-lhe o entusiasmo de viver, compartilharia com tantos a sua solidão. Se um homem soubesse que cada instante tem em si a eternidade, diria bom dia ao dia e viveria definitivamente aquele dia.

Mais uma vez


Em cima de um monte de escombros, na esperança de poder recomeçar, há um homem. Entre os destroços do que em tempos foi uma vida, uma casa, uma família e um lar, esse homem está ali como se pela primeira vez. Descontado o desânimo, a força férrea amarra-o ao desejo de reconstruir. A sua prisão é essa raiva à adversidade. Na esperança de poder recomeçar, entre um monte de escombros há um homem, mais uma vez.

16.6.06

A infinita regressão

Chama-se «A mad tea party». Desenhou-o John Tenniel, que faleceu em 1914. Tenniel foi o ilustrador dos livros do reverendo Charles Dodgson, que passou para a História da Literatura como o autor dos livros de Alice, sob o nome de Lewis Carroll. Especialista em lógica, ele coloca no diálogo do que a tartaruga disse a Aquiles o paradoxo de Zenão sobre a infinita regressão. Sucede assim cada vez que a verdade de P depende da verdade de P+1. O primeiro que quebrar a cadeia da verdade, tropeça na solidão da mentira. Só progredindo nos salvamos.