Vogando na mesma terra, encontra-se a mesma lua.31.10.07
22.10.07
16.10.07
Água castanha
É uma Igreja Baptista e é uma loja de venda de Coca-Cola. Ambas facetas de uma fé, a primeira no etéreo divino, a segunda na gaseificada profana. É a água castanha que revolucionou o mundo, com açúcar e gás carbónico. A foto data de 1940. Na altura os brancos concorriam através dela, com a água de quinino, inventada pelos índios, a água tónica.
18.9.07
O muro solar
É-se novo quando se vê a presença do Sol numa parede. Depois, o tempo encarrega-se de apagar a ilusão e de nos roubar a capacidade de ver. No final de tudo, piedosa, a Natureza dilui-nos nas estrelas, na aurora boreal da essência universal. Agradeço à Ana por me ter dito que havia este pior iraniano para quem a vida é o sonho de ser tal como se vê.3.9.07
Os provadores de vinagre
A imagem é profundamente simbólica. Encontrei-a por acaso e nela estava lá tudo. Buda no meio, expressa o amargo, tal como a vida o é, enquanto fruto do desejo, o aniquilamento da vontade, a apatia contemplativa. À sua esquerda, Confúcio é a expressão da rigidez organizada ante o azedume do que se sente tal como é, a imposição da ordem, a interiorização da disciplina. O terceiro dos provadores de vinagre é Laotzé, o que sorri, enfrentando com beatífica alegria de alma a tristeza do real, o que frutifica a semente do ódio em pétalas de amor. 2.9.07
Tréguas para o Amor
Lê-se na biografia comum do Projecto Vercial, que «Fernando Echevarría nasceu a 26 de Fevereiro de 1929 em Cabezón de la Sal. Cursou Humanidades em Portugal, Filosofia e Teologia em Espanha. Exilado em Paris desde 1961, parte para Argel a fins de 1963, regressando àquela cidade em meados de 66. Aí reside desde então». Parece que não, residirá no Porto, diz o Diário Digital. Ou será na capital francesa, como informa a RTP? Tanto faz, esta noite residiu aqui no meu pensamento. A «In-Libris», do Porto, fá-lo constar do seu último catálogo; o blog Almocreve das Petas recorda-o. Fernando Pesadelo de Ando Echevarría escreveu «Tréguas para o Amor» em 1958, numa edição de autor. Terá sido o seu segundo livro, o meu pensamento para este domingo.
12.8.07
Manuel Laranjeira
«O seu corpo, reduzido a quase um esqueleto nas últimos dias em que guardava o leito, sumia-se sobre as roupas, depois de morto, apenas se divisando a sua cabeça de farta cabeleira, a boca aberta como se ainda pudesse dizer a todos: “Irreverente como sempre fui, até me ri da Morte porque me antecipei a ela…”». Encontrei a frase sobre o seu suicídio e a foto num blog dedicado a coisas diversas, da política à cultura . Na foto, sentada a Augusta, sua amiga íntima, a quem ele dedicou muitos dos seus angustiados pensamentos, num «Diário», cuja leitura terminei há algum tempo, depois de, num primeiro relance e ter parecido, injustamente, pateticamente ridículo, como todos os escritos amorosos.
Todos os seus escritos manifestam a visão psicopatológica, nele quase obsessiva, enquanto explicação para a complexidade do ser humano e da errática sociedade. A sua tese de licenciatura, galardoada com dezanove valores já o prenunciava, intitulando-se «A Doença da Santidade (ensaio psico-patológico sobre o misticismo de forma religiosa)».
Ontem à noite estive com as «Prosas Dispersas»; mais uma horas e, acabado o livro, talvez consiga falar dele, quando me esquecer de um frase sua « sofro da horrível desgraça do homem que olha para a vida e sente que já não pode ser enganado…».
10.8.07
31.7.07
A mão indefinida
Debruçado sobre si, como se em amurada de navegante barco num gesticulado adeus ao cais, olhava, míope, para cada um dos interstícios daquele enigmático móvel que era agora, mais do que a decoração única do seu local, a única companhia do seu ensimesmamento.Com o tempo dedicara-se-lhe.
Na aparência exterior uma caixa, de antiquíssima madeira, lenho de velha árvore, uma de tantas de milenária floresta, oriunda do desconhecido, ali chegada Deus sabe por que mãos humanas, poupada, o Diabo ignora a que riscos da existência animal.
Sobrevivera, pequeno cofre e minúscula arca, couraçando-se naquele exterior paralelipipédico, ferragens cobreadas a dar-lhe austeridade, a ligeira ferrugem nas dobradiças a criar a ilusão de que era essa a causa da sua impenetrabilidade.
Agora estava ali, num lugar estranho, longínquo, ante umas mãos de si ciosas, percorrendo-lhe, como se a um labirinto sensível, os tímidos caminhos do que pareciam modos de lhe aceder, a inesperada forma de despudorar definitivamente o seu segredo.
Debruçado sobre si, estava um homem, navegando o mar azul de um adeus marítimo, a mão indefinida para o cais da vida a que jamais regressaria, míope de desejo, ela como companhia e essa noite a sua única decoração.
Ninguém sabe como se deu o milagre, ou o dia milagroso em que ocorreu o regresso aos vinte anos da ilusão, o coração apressando-se ante aquela reencontrada memória.
Ali estava, porém, e com ela a doçura passada e com o seu regresso o inesperado rubor da lembrança.
Ser-se novo e viver com isso a loucura entranhada de um mundo por haver, ser-se novo e ficar-nos na retina o momento único em que o mundo parece exemplo gritado aos outros, ser-se novo e ser a nossa nudez da alma tão altiva que nem o despido corpo nos envergonharia tanto. Ser-se novo, enfim, e termos de nós o anseio e dos outros a esperança.
Ninguém sabe como se deu o maravilhoso momento em que a antiquíssima caixa, de milenária madeira, sussurrou o milagroso modo de ser possível conhecer de si o que nem ela sonhava ser possível dar-se a conhecer.
Esgotados de nocturno cansaço, o mundo deu com eles, dias depois, o sol a pique, ciosos do caminho sensível da sua memória comum, a espuma do mar navegado encharcando-lhes a alma, esperançosos no que não fora, ansiosos pelo que não poderia ter sido.
Debruçado sobre si e a si dedicado, um homem escrevera este bilhete, sem razão, nem motivo, ou sequer o pretexto de uma intenção.
Lido por tantos outros, nenhum jamais soube como foi possível. O instante em que se dera o espasmo rouco da criação perdera-se no tempo, esgotara-se no espaço, findara-se aqui, neste momento de lembrar-te, nesta forma de esquecer-me.
22.7.07
Um doloroso silêncio
«Quando falar ou estar calado já é indiferente», é melhor já nem falar. Aprendi-o esta madrugada, ao ver o «Cinema Paraíso», compreendi-o depois. No olhar de espanto de uma criança, o mundo da ilusão, na escuridão de um cego, o mundo da fantasia. «Agora que ceguei vejo melhor», diz Alfredo, o velho projeccionista da aldeia de Giancaldo. O filme é um hino heróico ao amar impossível, os beijos cortados.10.6.07
O acaso e a necessidade
A coincidência está em que esta senhora teve a gentileza de aparecer em Sintra, quando ali lancei o livro sobre a morte do actor Leslie Howard, porque o conhecera em Lisboa, quando ele aqui se deslocou em 1943, antes de partir para o voo fatal.
A coincidência está em que o biógrafo escreve que o casal regressou da sua viagem de núpcias às Ilhas da Madeira e Açores no dia 25 de Março de 1949, precisamente aquele em que nasci.
A coincidência está em que eu tinha estado a ler, em diagonal, uma recensão a uma biografia de Walt Disney, precisamente quem aparece na fotografia e a dedica, autografando-a, ao casal português.
É caso para dizer que o acaso ainda é, com os inesperados que me traz, o que me anima e me convence na predestinação para a alegria.
15.5.07
O mundo de Sophia

Um homem chega a casa, moído de trabalho e sabe que o espera, na sua casa ou vindo da casa do vizinho o som de um jogo de futebol. Um homem vai ao café e corre o risco de a conversa ao balcão ser a propósito de futebol. Um homem foge para a praia e tem fortes probabilidades de acertar-lhe no toutiço uma bola de futebol.
Mas um homem, de meia idade, daqueles que a vida moldou nos tempos da lei seca do recato e do pudor, ao saber das notícias desgraçadas deste mundo infeliz, dá de caras com esta: Sophia Loren faz strip-tease se o Nápoles subir de divisão.
Conta-se, como verdade ou anedota, que a senhora, em cujo corpo o Senhor prodigalizou a sua generosidade, foi recebida pelo Papa João XXIII, em audiência. Vestida com um profundo decote, do qual saltavam, em hossana, como num Gloria in Excelsis Deo, portentosos frutos, quais os da árvore do Paraíso, ajoelhou-se, em genuflexo respeitoso para beijar o Pontifício anel. Antecipando a visão tentadora da carne e a danação do pecado que ali se lhe abria, lúbrica, à visão, Sua Santidade não se terá contido e semi-cerrando os olhos, murmurou um «ai, meu Deus!» de embaraço reprovador!. Diz-se que do alto da nave uma voz cava e gutural, a voz profunda do Todo-Poderoso, se fez ouvir num «Obrigado, João, por me teres chamado!».
Um homem chega a casa, moído de trabalho, e, perdido na memória da sua meia-idade, dá graças a Deus pelo que leu no jornal, liga a TV, na ânsia de que o Nápoles ganhe, hoje já!
Contos do desaforo
Não sei como conseguirei conviver com este novo ser que se albergou no interior do meu conturbado viver, flor de ficção poética no casco envelhecido da árvore das obrigações. Para já decidiu falar através deste livro, como um sonâmbulo, liberto das conveniências. São contos. Se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume. Não sei como será nem como foi. Está aí, inevitável e embaraçoso.13.5.07
Vinte anos
5.5.07
O homem aparente
25.4.07
O Cosmonauta
«Eis o Vademecum do Cosmonauta,uma autentica jóia eis a verdadeira caixa de pandora! Este espaço virtual achado pelo explorador, permite-lhe beber do seu tesouro, e juntamente com o seu criador e os eventuais leitores irá entrar num campo de descoberta, povoado pela imaginação e pela criatividade.», Hugo Barreiros escreveu no seu novo blog «O Cosmonauta». Voga pelo espaço sideral, da terra alheado, imerso no mar da sua imaginação delirante. 5.4.07
A terra dos meus
Vista daquela enregelada janela, em que o próprio vidro parecia gelo, a montanha abraçava-nos, amiga, envolta em bruma e escondida na distância. Naquele dia, sentados à mesa, a toalha dos domingos, o guizado dos dias de festa, o nosso pai dividia entre nós o pão comum.Sentido hoje, memória de um tempo feliz, desse dia ficou apenas esta fotografia.
Olho para ela com a nostalgia de quem se procura. Não mais lá voltarei, à terra dos meus onde nada me pertence e a tudo sou alheio.
5.3.07
A Casa dos Artistas

Um pedaço incerto de papel, o escorrer da tinta, os primeiros passos na arte. Criou um blog, uma janela aberta sobre o mundo, para mostrar o que faz e chamar outros para que o sigam. Chamou-lhe, sedento de um lar, a casa dos artistas.
18.2.07
28.1.07
Em estado puro
Há dois anos espantou um alfarrabista de rua ao interessar-se por um livro sobre Picasso e ao insistir comigo para que lho comprasse. Hoje, um dia gélido, ao passarmos pela mesma rua, pelo mesmo alfarrabista, este lembrou-lhe a história que não mais esquecera. «Talvez a sensibilidade pura das crianças entenda o essencial daquela forma de ser arte», arrisquei com a minha lógica redonda de adulto. «Não é por isso», respondeu-me, amigável, como quem não quer melindrar o pai, «é só mesmo porque gostei». Chama-se Afonso. Oxalá se conserve assim, em estado puro.
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