26.4.09

De passagem

Da última vez que lá tinha estado, de passagem, havia apenas uma pensão e um modesto restaurante. Agora há uma pousada com bastantes estrelas, de que vi o exterior. O lugar é magnífico porque insólito, um vago cheiro sulfuroso perfuma o ar. A cor incendeia os olhos, o vermelho ocre, o cobreado, mais alguns outros anéis do arco-íris, ferruginosos, pétreos, na paleta dos azuis e dos verdes, o negro vulcânico, a cinza, os fundidos no cadinho alquímico da Mãe Natureza. Encontrei agora esta fotografia, que retrata com perfeição a sua solitária grandeza.
É a Mina de São Domingos. Aqui ao lado de mim, na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, há uma colecção de slides. Só pode ver-se através da rede local. Quantos outros ali estiveram, a guardar em fotografias, tão pungentes como esta ou esta, ou tantas mais, a alma envenenada de uma mina abandonada.
Em 1997 Filipe Verde produziu um documentário a que chamou Biografia de uma Mina. Em tempos estudei a La Sabina, a empresa que explorava o minério, por causa de um livro que vou agora começar a escrever. Agora estive ali. De passagem, sempre se passagem, o lugar vive ao abandono dos que passam e só de quando em vez voltam.

13.4.09

O desejo do outro

A foto é fantástica. O que atrai a quem devia ser o foco da atracção. Vê-se e conclui-se que há sempre o desejo ante o que não somos, o apetite pelo que não temos, a fantasia mesmo face ao que não gostaríamos de ser. 

12.4.09

A velhice das monarquias

Em Outubro de 1957, a Rainha Isabel II visitou os Estados Unidos da América. Foi recebida pelo Presidente Dwight Eisenhower. A foto ilustra um banquete oferecido em sua honra na Casa Branca. Desde o início do seu reinado em 1952 existiram 11 Presidentes na América. As monarquias envelhecem, as democracias preservam-nas. Eis a foto do último instante, aqui.

29.3.09

A soberba

Estive aqui. Séculos antes de mim os romanos. Depois de todos nós nem sei quem. O lugar chama-se Estoi. A memória não tem nome. Ficou de tudo uma fotografia. Rondei o que resta do torreão. Nos interstícios da argila há o vazio que sustenta a soberba edificação. Até ao céu. Um mundo irredutível soergue-se.

3.3.09

O Livro das Horas

São as horas audíveis, tictaqueantes, as de arrastados momentos e as de fulgurantes instantes. As horas de acordar a horas e as horas de espera. Trabalhar durante horas e estar à espera há horas. É o horário. São os últimos minutos do filme e os segundos de prazer. Os anos de vida. O ter pouco tempo. O acabou-se o seu tempo. São as horas, estas horas.

21.2.09

O rascunho

O filme que vemos nasce na moviola como o livro que lemos nasce na revisão. Escrever é simples e no rascunho está o génio do escritor. Só que o leitor é medíocre. Não consegue imaginar o sentido ante o lido. Tal como na vida a sequenciação é tão necessária na arte. O grande plano de um chocolate quente, por exemplo, num sábado de manhã. Com ele a narrativa está ganha. Reparei hoje que o canteiro das roseiras estava tratado. Os troncos saídos do Inverno esperam, prometedores, a chegada do sol. Em breve estará aí a magnífica rosa.
P. S. A foto é de Pasolini na mesa de montagem de um dos seus filmes, na moviola.

17.2.09

Aquele homem


Ontem ouvi, em viagem, uma magnífica entrevista feita na Antena 2, pelo Luís Caetano a um escritor argentino cujo nome não consegui reter. Naquele momento a maçadora estrada sumiu.

Num momento da conversa relatava quando encontrou o corpo do pai, médico, assassinado pelos para-militares, caído numa poça de sangue. Revolvendo-lhe os bolsos, a alma despedaçada, encontrou-lhe então um poema do Jorge Luís Borges Ya somos el olvido que seremos, copiado num manuscrito de difícil caligrafia.

Esta manhã fui procurá-lo: «Ya somos el olvido que seremos. El polvo elemental que nos ignora y que fue el rojo Adán y que es ahoratodos los hombres y los que seremos».

Num mundo de abutres este, o verso é um hino à mais intrínseca humanidade e modesta consideração pelo outro: «No soy el insensato que se aferra al mágico sonido de su nombre; pienso con esperanza en aquel hombre que no sabrá quien fui sobre la tierra».

11.2.09

Delete

Passou a ser a minha caneta, noctívaga, madrugadora, a minha janela para o mundo, a minha caixa de correio, o lugar secreto dos meus desabafos, o meu arquivo, a minha sala privada de cinema, onde passo os olhos pelos jornais que não leio. Estão lá os livros que deveria acabar, o trabalho forense que me persegue com os seus prazos, os momentos mais íntimos, porque até um advogado tem alma. A mão é a minha. É através dela que se escoam os sentimentos, escorrendo para o teclado, em batidas incertas, por vezes com a aparência de palavras seguras e determinadas. Há no teclado uma tecla chamada «delete». Tem sido na vida a minha sombria tentação.

7.2.09

A ordem inversa

Devo à minha amiga T o ter encontrado a fotografia, o tê-la digitalizado, recortada, o tê-la enviado. São estes os laços bons que a blogoesfera cria. Lembrei-me da Agustina esta manhã, não no seu livro em azul que estou a ler e que deixei a meio, a faltar ainda a primeira parte, porque sigo pelos seus capítulos do fim para o princípio, os do fim talvez mais apetitosos; sim por ter comprado, há uns anos A Contemplação Carinhosa da Angústia, numa Feira do Livro nas Caldas da Rainha, eu de férias então em São Martinho do Porto. Tudo isso está hoje muito distante. Fui buscá-lo agora à estante, deixando lá os seus companheiros, fruto de uma obra que não consegui reunir na totalidade. Uma sensação vergonhosa de não lembrar nada, eis o que sinto. De que valeu a pena ter lido, se a recordação que fica é apenas de terem sido tristes os dias em que me alegrei a ler o que afinal já esqueci? Talvez seja essa a renovada esperança, a superstição do recomeço, a tentativa de viver a vida do fim para o princípio, em rejuvenescimento perpétuo.

24.1.09

Mon Oncle

Uma das cenas mais simbólicas do filme Mon Oncle de Jacques Tati é a do pontapé. É verdade, em matéria de tios. Em vez de chorarem, riam-se: aqui.

Anseio de noite

Fica nas narinas o odor a chuva, trazida pelos anéis do vento, nos olhos a gradação da sombra, no coração o eco de paz. A Natureza chama à quietude, à tranquilidade, ao contentar-se o corpo com pouco, o reclamar-nos a alma, tudo. Amigáveis, as palmeiras acenavam-me adeus. Julgava que se despediam quando afinal chamam.
A esta hora o dia está-lhes a findar, um anseio de noite possui-os como um prémio. São excertos de memória, um intervalo de uma contida alegria.

O riso

Um dia, Deus perde-se. Divertido com o próprio divertimento, o Criador ri-se da grotesca criatura, um macaco vestido de princesa.

3.1.09

Viagem sem regresso


Ao fim da tarde o mesmo sol que nos deixa despede-se deste local remoto. A única diferença é o calor húmido como se o mar fervesse com o afundar-se nele em cada dia, para um banho antes da cama, aquela gigantesca bola amiga, incendária, que nos alumia, aquece e promete o dia de amanhã.
Chega-se aqui sem outro motivo que não seja ver. O sentir vem depois, com a imobilidade, a ausência de vontade, a Natureza a cumprir o seu papel de chamar os corpos a si, diluindo-lhes a identidade da alma.
Chama-se Bata, na Guiné Equatorial. Para que não haja equívocos esta foi a minha primeira viagem a tal local. Puramente imaginária. É uma forma exótica de viajar. A única que admite a possibilidade de não haver regresso.

27.12.08

Um pouco d'auga, pl'as alminhas!

Creio que foi há dois anos vieram pedir aqui a casa água para dar de beber a uma destas árvores ou talvez às duas que «coitadinhas tinham sede». O ar inquieto não se disfarçava no rosto de irradiante bondade. Penso que teremos dado o contributo de uns baldes, atestados à torneira, para o florestamento da cidade. Por isso, as pobrezinhas conseguiram resistir à canícula e à secura na goela e ali estão agora, refasteladas de tão molhadas, os ramos de quando em vezes a adejar a alegria de estar a chover. Ao lado passam chapinhantes automóveis e uma transeuente encharcada. «Então e a sombrinha vizinha?», perguntaria eu de bom grado. Mas já fugiu, Praça de Espanha adiante, ala que se faz tarde, nem sombrinha nem sobrinha que o dia hoje está de água vai.

26.12.08

Um vestígio de bondade

Há dias em que as tardes parecem noites e em que o amanhecer não devia ter acontecido. Há dias em que o sol longínquo inicia o seu apogeu por sobre a terra gélida, os ventos de norte, as almas glaciais. Nesses dias os navegadores rasgam das velas abandonadas tiras que serão farrapos convencionais, feios de tão vulgares, atados simples, restos feitos do que já foi uma forma de voar. Encostadas às amuradas, salgadas de tanto mar, as embarcações chiam as suas velhas carcaças, retesando o cordame, provocando a amarração.
Chegámos aqui ontem, contentes de viagem, felizes por viajar. Um momento depois começava a nevar. No cais um vestígio de bondade aninhava-se na forma de uma bebedeira noctívaga, o passo hesitante, já sem saber para onde ir.

25.12.08

O vau de mim

Majestosa, emergindo, túrgida, entre a folhagem, ei-la a força procriadora da Natureza. Espinhosa, difícil, inacessível, uma beleza solitária, supreendente na manhã. Um pouco antes um jardineiro, de passo estugado, desejou-me um bom dia. Surgiu-me da mesma vida de que esta flor é vida. Uma nesga de sol guardou-se, aninhado também no vau de mim, aquecendo o sangue num dia de frio.

22.12.08

Uma vida à margem

Imagine-se que ao chegar de uma longa viagem a memória retenha em sonho que se viajou até aqui. Imagine-se ao alcance dos pés o gorgorejar da água tranquila a espreguiçar-se na margem, à distância da vista o fundo celeste recortado em silhueta sob a névoa, o musgo a atapetar um chão onde apetece dormir, imagine-se um local onde se deseja ficar.
Imagine-se que ao chegar se sonhou não ter regressado, como na fotografia de uma adolescência de onde jamais se deveria ter partido, muito menos em viagem.

6.12.08

A vertigem

Olhem-se os olhos, atentamente. Tente-se captar a alma, o sentir, o íntimo pensamento. É exactamente esta a sensação. Na vida também, como na imagem. A vertigem de não conseguir.

30.11.08

A queda

Espera-se sempre grandeza no trapezista, na justa proporção do seu risco. Estando em causa a vida, que jogue nisso tudo o que quer viver. Claro que, às vezes, a corda bamba é um ténue fio, que mal se imagina debaixo dos pés. Senti-lo, é então a vertigem de todo um mundo de equilíbrio a desmoronar-se. Sob o incerto holofote da precária glória, há a figura ridícula, transido de medo, porque desta vez cair é morrer. O público, ignorante, ri, pedindo mais.