24.1.09

Mon Oncle

Uma das cenas mais simbólicas do filme Mon Oncle de Jacques Tati é a do pontapé. É verdade, em matéria de tios. Em vez de chorarem, riam-se: aqui.

Anseio de noite

Fica nas narinas o odor a chuva, trazida pelos anéis do vento, nos olhos a gradação da sombra, no coração o eco de paz. A Natureza chama à quietude, à tranquilidade, ao contentar-se o corpo com pouco, o reclamar-nos a alma, tudo. Amigáveis, as palmeiras acenavam-me adeus. Julgava que se despediam quando afinal chamam.
A esta hora o dia está-lhes a findar, um anseio de noite possui-os como um prémio. São excertos de memória, um intervalo de uma contida alegria.

O riso

Um dia, Deus perde-se. Divertido com o próprio divertimento, o Criador ri-se da grotesca criatura, um macaco vestido de princesa.

3.1.09

Viagem sem regresso


Ao fim da tarde o mesmo sol que nos deixa despede-se deste local remoto. A única diferença é o calor húmido como se o mar fervesse com o afundar-se nele em cada dia, para um banho antes da cama, aquela gigantesca bola amiga, incendária, que nos alumia, aquece e promete o dia de amanhã.
Chega-se aqui sem outro motivo que não seja ver. O sentir vem depois, com a imobilidade, a ausência de vontade, a Natureza a cumprir o seu papel de chamar os corpos a si, diluindo-lhes a identidade da alma.
Chama-se Bata, na Guiné Equatorial. Para que não haja equívocos esta foi a minha primeira viagem a tal local. Puramente imaginária. É uma forma exótica de viajar. A única que admite a possibilidade de não haver regresso.

27.12.08

Um pouco d'auga, pl'as alminhas!

Creio que foi há dois anos vieram pedir aqui a casa água para dar de beber a uma destas árvores ou talvez às duas que «coitadinhas tinham sede». O ar inquieto não se disfarçava no rosto de irradiante bondade. Penso que teremos dado o contributo de uns baldes, atestados à torneira, para o florestamento da cidade. Por isso, as pobrezinhas conseguiram resistir à canícula e à secura na goela e ali estão agora, refasteladas de tão molhadas, os ramos de quando em vezes a adejar a alegria de estar a chover. Ao lado passam chapinhantes automóveis e uma transeuente encharcada. «Então e a sombrinha vizinha?», perguntaria eu de bom grado. Mas já fugiu, Praça de Espanha adiante, ala que se faz tarde, nem sombrinha nem sobrinha que o dia hoje está de água vai.

26.12.08

Um vestígio de bondade

Há dias em que as tardes parecem noites e em que o amanhecer não devia ter acontecido. Há dias em que o sol longínquo inicia o seu apogeu por sobre a terra gélida, os ventos de norte, as almas glaciais. Nesses dias os navegadores rasgam das velas abandonadas tiras que serão farrapos convencionais, feios de tão vulgares, atados simples, restos feitos do que já foi uma forma de voar. Encostadas às amuradas, salgadas de tanto mar, as embarcações chiam as suas velhas carcaças, retesando o cordame, provocando a amarração.
Chegámos aqui ontem, contentes de viagem, felizes por viajar. Um momento depois começava a nevar. No cais um vestígio de bondade aninhava-se na forma de uma bebedeira noctívaga, o passo hesitante, já sem saber para onde ir.

25.12.08

O vau de mim

Majestosa, emergindo, túrgida, entre a folhagem, ei-la a força procriadora da Natureza. Espinhosa, difícil, inacessível, uma beleza solitária, supreendente na manhã. Um pouco antes um jardineiro, de passo estugado, desejou-me um bom dia. Surgiu-me da mesma vida de que esta flor é vida. Uma nesga de sol guardou-se, aninhado também no vau de mim, aquecendo o sangue num dia de frio.

22.12.08

Uma vida à margem

Imagine-se que ao chegar de uma longa viagem a memória retenha em sonho que se viajou até aqui. Imagine-se ao alcance dos pés o gorgorejar da água tranquila a espreguiçar-se na margem, à distância da vista o fundo celeste recortado em silhueta sob a névoa, o musgo a atapetar um chão onde apetece dormir, imagine-se um local onde se deseja ficar.
Imagine-se que ao chegar se sonhou não ter regressado, como na fotografia de uma adolescência de onde jamais se deveria ter partido, muito menos em viagem.

6.12.08

A vertigem

Olhem-se os olhos, atentamente. Tente-se captar a alma, o sentir, o íntimo pensamento. É exactamente esta a sensação. Na vida também, como na imagem. A vertigem de não conseguir.

30.11.08

A queda

Espera-se sempre grandeza no trapezista, na justa proporção do seu risco. Estando em causa a vida, que jogue nisso tudo o que quer viver. Claro que, às vezes, a corda bamba é um ténue fio, que mal se imagina debaixo dos pés. Senti-lo, é então a vertigem de todo um mundo de equilíbrio a desmoronar-se. Sob o incerto holofote da precária glória, há a figura ridícula, transido de medo, porque desta vez cair é morrer. O público, ignorante, ri, pedindo mais.

29.11.08

O radioso

Um dia de frio, de nuvens, de humidade, um dia em que se gela sem sobretudo e em que o sobretudo faz suar. Um dia em que apetece passear e se deseja voltar para casa. Um dia em que se come massada de peixe como quem jejua a maçada da carne. Sem vontade nem desejo. Um dia, porém, em que num instante fulgurante, o sol ilumina, portentoso e quente, uma janela. Ei-lo aprisionado como memória, sentido como eternidade.

Manhã alta

Ás vezes é só aquela sensação de que, à falta de melhor meio, a eliminação resolve. Passa isto como a dor de cabeça desta manhã. Tudo vem a propósito de uma peça que passou na Cornucópia e eu não vi, comigo a teimar que se chamava Kurt quando era Karl Valentin o seu autor, baralhado, sempre a lembrar-me do Brecht. Depois, já pelo anoitecer, foi a lembrança do nome de todos quantos escreveram para teatro e como se escreve para teatro, aqueles separadores banais entre as falas, indicações ao encenador, sem arte, sem estilo, apenas frases necessárias, a voltearem como um vento frio e desabrido. Esta manhã, depois de uma noite povoada de Ionesco's e Beckett's e Strindberg's e tantos mais, acordei assim, cheio de frio. Talvez uma aspirina ajude, primeiro a resolver a dor, depois a confusão. No mais é uma questão de cobertores, a ficar, ou de um banho quente, a levantar-me, que a manhã já vai alta e na vida o palco está deserto.

23.11.08

A ideia de casa sua.

Cheguei, enfim, aqui. Longa viagem, o mar encapelado, a bagagem acumula-se agora no armazém da alfândega, à espera de ser desembaraçada. Comigo veio apenas o necessário. É a questão do viajante, a agonia do exilado, o tanto que se deixa ficar atrás de si. Não sei se me reunirá parte do que é memória. Ao olhar para estas manchas ferruginosas, que a água gelada ladeia como uma carícia fria, penso que penosa foi a partida. Um pouco adiante deste lugar há um renque de casas em madeira. Talvez quem ali viva tenha nascido ali, a ideia de casa sua se resuma a deixar-se ficar.

16.11.08

Um roçagar de asas

Adormece-se rápido, tudo se afunda no túnel negro do sono, e o corpo, indefeso, deixa a alma vogar para os antípodas do ser. O homem fica à mercê do que não imagina. E de repente, alagada a fronte de suor, sabor sapídeo na boca, hálito sulfúreo, moída a ossada, regressa-se das profundas do Inferno, da desolação lunar do pesadelo. Esteve-se lá, no território onde o medo se torna raivoso cão, onde o apelo doce a não regressar é prenúncio fatal de comoção. Um roçagar de asas abandona a beira da cama. Acende-se a luz para se ter a certeza de que foi sonho. Ao longe, o chorar de uma criança é o único sinal de pesença. No apartamento ao lado, um casal jovem suspira de entusiasmo. A vida retoma o seu lugar, com promessas de existência.



19.10.08

A vida esperançosa

Quando o sol se afunda no mar gelado, as águas não aquecem. A alma de quem assiste ao poente tardio, essa, gela. Num mundo de cores todas as tonalidades se concentram. No momento da agonia solar, é o silêncio que anuncia, trágico, o iminente começo da noite. Em certos dias a lua já está no céu e com ela a esperança das marés, a fertilização do ventre da terra.

7.10.08

Hugo Bernardo

De súbito um homem vai dando conta. Começa por serem uns desenhos, esboços inocentes nas toalhas dos restaurantes, em papéis soltos que vão ficando por onde calha. Um dia chegam os óleos, as telas, o cavalete. Há um momento em que gostaríamos que nos decorasse a casa com os seus quadros, mas hesitante diz que é para depois e pergunta porquê. Agora, mais afirmativo, criou um blog com o seu próprio nome. Chama-se Hugo Bernardo, ele e o blog. Sucede ser meu filho. Independentemente disso, vim aqui dizê-lo.

27.9.08

Os locais da existência

É do livro que acabarei de ler, linha a linha, os seus três volumes. Uma prova, emendada, revista, entre a tipografia e as mãos de onde saíu. Um dia destes escrevi o nome de quem isto escreveu e, idiotamente calino, trocando tudo, letras, palavras, ideias e sentimentos, chamei-lhe Andersen. Ninguém deu conta. Quem reparou calou-se, poupando-me à imagem da ignorância. Vi isso esta noite, passeando pelos locais da minha existência. Perdão Ruben Andresen Leitão, ou desculpe-me Ruben A., já nem sei como se diz quando se quer pedir compaixão.

Os dias úteis

Acordei com ele, recebida a notícia da sua existência por amável mão. Foi nele que encontrei, entre tantas outras, esta foto de um livro que o tempo devorou e nela, na primeira fila do lado esquerdo, o António Ramosa Rosa, de quem me lembro inesquecivelmente o poema «Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob as montanhas cinzentas e montanhas cinzentas». É o blog Poesia dos Dias Úteis, homenagem a Vasco da Costa Marques e a tantos outros poetas. Gratidão a quem avisa, gratidão a quem salva a poesia de morrer esquecida.