30.3.06

Uma lembrança, se faz favor


Houve já aqui um tempo de suspiros e águas correntes, amores venais e ilusões de ternura paga. Houve já aqui paixões de aluguer, carícias encomendadas, suspiros exagerados. Tudo aqui se simulou e nada parecia proibido. Houve já aqui um tempo em que homens e mulheres se entregaram uns aos outros em cadeias de união carnal, num deboche demencial, que nenhuma lei parecia impedir. É um dos lupanares de Pompeia, o bordel que a lava conservou. Passo aqui indiferente à ladainha do guia turístico, neste fim de tarde, perto da hora do jantar. Lá dentro nada há e ninguém ficou. Estão todos mortos, e não há sequer testemunhas para o recordar. A luxúria, a agonia do prazer infindo, os sentidos exaustos e o corpo insaciável, hoje é isto, este momento petrificado, imóvel, estático, simbolicamente vazio, um ponto de passagem num passeio, o hotel à vista, meus senhores obrigado pela visita, é só o que a vossa generosidade me quiser dar.

29.3.06

O saciar da carne

Há, no imediato horizonte além do qual tudo me é desconhecido, a presença brumosa da ruína, a incerteza da subsistência, a dúvida sobre a própria permanência. Há no lugar distante que a vista alcança, o saciar carnal das saudades de terra. Aproximámo-nos então, recolhendo cautelosamente o pano. Ao ver o meu reflexo na água, vi na agonia daquele espelho, uma imagem de estranheza, como se exilado de mim, vivesse em terra estrangeira. Puxados a remos, acostámos exaustos.Um cenário de terror aguardava-nos então. Nada sobrevivia naquele inferno; corpos estropiados, semeados a esmo, marcavam, num rio de sangue e de vísceras estraçalhadas, a passagem do homem por ali.

26.3.06

Domingo de manhã


Houve um tempo em que, por ser domingo, eu sonhava com a tarde no cinema, em que, sendo domingo, o almoço era melhorado, em que, apesar de ser domingo, não íamos à missa nem ao futebol. Houve um tempo em que, ao ser domingo era um dia diferente, festivo, familiar.Houve um tempo que aos domingos eu estava contente. Hoje, sentado aqui com os papéis amarrotados desta escrita, devorado pelo trabalho que me espera e diminuído pela culpa de o recusar, já que é domingo, nem sei o que sinta, o que faça ou o que diga. Amanhã é segunda feira. Tudo passa, até o tempo em que havia domingos.

24.3.06

Os passos erráticos

Não sei se sou o criador do que me surge: às vezes é só uma luz irradiante, uma nesga de céu, o horizonte possível para além de uma curva em estrada desconhecida.Não sei se não sou, eu próprio, o que me surge. Espero-me, pois, aguardando-me, diluído na bruma, indiferente ao norte perdido, aos passos erráticos do que me chega.

23.3.06

O medo das formigas

Lembro-me que era miúdo e que íamos para ali de farnel. Hoje, na confusa memória e na má fotografia não dá para se perceber, mas está lá tudo: as migalhas do folar, o termos do café, o medo que eu tinha das formigas, a gorda Angelina a arfar de cestos, o meu tio Saúl a dormitar ao sol. No mais morreu tudo. O lugar é uma urbanização de casas indiferenciadas para gente anónima e eu próprio já nem saberia ir lá.

20.3.06

Irreconhecível criatura

Depois de tentar, nos últimos dias, por todos os meios e mais alguns colocar aqui fotografias, sem as quais este blog não tem sentido nem vida, e após recusas e falhanços, esperanças e desilusões, estava hoje disposto a não começar o meu dia sem vir aqui dizer ao menos esse «não consigo!». Os deuses tiveram pena! Pronto, sou eu: há cinquenta e um anos atrás, como se nota, feliz sem saber o mundo sem sentido e sem vida que me esperava. Carneiro que sou, astrologicamente pelo menos, estou quase a comemorar o facto, dando conta que não sucedeu, que ainda é a melhor forma de se celebrar uma tal coisa.

16.3.06

A falésia

Tínhamos chegado nesse Verão talvez mais cedo do que em todos as outras vezes antecedentes, ou então terá sido num daqueles fins de semana que terminam no pesadelo do domingo à noite, a agressividade do regresso, o insuportável do arrumar sacos, malas para carregar, o não haver jantar que apeteça, as crianças chorosas de sono, os pais desiludidos do esforço, o amanhã ser segunda-feira. Lembro-me do exacto momento, o do reencontro com a brisa marítima, o acre marítimo daquele lugar. Era o tempo da melancolia sem motivo, das férias por obrigação, da família como atrelado. Voltei hoje aqui, fotograficamente apenas, tolhido de desejo, esquecido da saudade.

11.3.06

À mercê do capim

Era eu, branco, e o Jéjé, mulato, filho do funileiro Lucas. O Lucas deve ter morrido, o Jéjé nem sei se vive, eu ando por aí. Um dia andava eu miúdo e uma miúda como eu, brincando no meio do capim. Eu era tão miúdo que me metia com uma miúda no meio do capim, para brincarmos aos jantarinhos para as bonecas. Jantarinho foi esse que aquilo largou a arder. Era eu, branco, o Jéjé, mulato, pretos de fuligem, a tentar apagar capim a arder. A Luizinha fugiu para casa com medo de apanhar. Estamos todos, uns velhos e outros mortos, um destes dias à mercê de sermos engolidos pelo crescer o capim. Talvez sobejem as bonecas da Luizinha. Hoje já ninguém brinca aos jantarinhos, hoje ninguém pega fogo ao capim.

8.3.06

Altos voos

Compreendam a única coisa que me irritou quando morei aqui, naquela noite em que vim às escuras ao quintal: o tempo que me levou o voltar para casa, depois de seis meses no hospital e uma semana a subi-la, a escada do regresso.

A carreta das almas

Besta de carga e animal de tiro, à força de braços e de dentes rilhados, rangendo a ossada e babando-se do esforço, ei-lo, excrecência de humano atrelado à funerária carreta do seu ganha-pão. Chovia copiosamente e da janela larga do esplêndido hotel, rimo-nos todos, turistas de ocasião, imenso e a bom rir. Eu tirei esta fotografia. Na aparência, ele seguiu o seu destino de fome, na realidade persegue-me de cada vez que o olho e me revejo, a alarvice de mim na indiferença por ele.

3.3.06

De pé, ó vítimas da fome!

A meu lado duas anafadas matronas soltavam gritinhos nervosos, entreolhando-se carregadas de rubores e sub-entendidos. Tímidas, refugiando-se nos refolhos do seu recato, um par de pálidas gémeas bexigosas, faziam com a amplitude da mão o gesto obsceno de lhe medir o tamanho, e adivinhar a potência. Foi na excursão à Capadócia. Não que eu lá tenha estado, mas só porque poderia ter acontecido.

1.3.06

O ciclo vital

Seja o cheiro fétido a lenha podre, a urina ressequida de um gado que se aninha, encurralado nos confins húmidos deste casebre, aquecendo-se ao próprio bafo. Seja a memória de uma infância a pé descalço, alimentado a casqueiro duro e a uma malga de caldo em que boiava uma, com sorte duas, rodelas de um chouriço bedunguento. Seja a miséria do local e a fealdade da recordação. Seja esse o chiqueiro a que chamo as minhas origens. Na porta aberta, na lenha empinada a um canto, no bolor e tudo o que dele exala, eu sinto o húmus de onde saímos, a putrefacção em que nos tornaremos.

28.2.06

Esgravatando com as unhas

Admito que esteja em escombros, concordo que está em ruínas, mas é à mesma uma prisão. Poder ser apenas um sonho mau, um péssimo momento, o fastio de um dia sem sair da grilheta das obrigações, do encarceramento dos deveres. Mas nesta vida celular, de rotina confinada, a mesma vontade de cavar um túnel, comum a todos os prisioneiros. Mesmo que não leve a qualquer saída, ocupa o espírito com a ideia da libertação.

27.2.06

O azul ou o branco

Teria sido num tempo em que as tardes eram suficientemente extensas para que se pudesse dormir, tranquila, a sesta, as noites tão grandes que era possível, sem esforço, ficar a ler. Teria sido num tempo em que numa daquelas janelas eu vi o alvorecer de uma ideia e p0r causa dela decidi não regressar. Dias depois zarparia o último navio e no vazio do porto eu compreenderia, enfim, o mundo que me restava. Teria sido num tempo em que se poderia optar por uma viagem ou por uma permanência. Hoje, olhando-à à fotografia da casa, de cuja janela tudo me sucedeu, hesito se é o azul ou o branco o automóvel que lá deixei. Não sei em nome de que ideia, por causa de que ilusão, ou a caminho de que erro, mas parti, do mesmo porto, num outro navio, a caminho do mundo em falta, a parte restante de mim.

23.2.06

E depois do adeus

Trancado, noite após noite, nos esconsos de um escritório, imagino que em redor exista o azul dos céus e o verde dos mares. Visto o mundo porém, desta nesga obtusa de janela, pelo intervalo esboroado das persianas, resta-me uma pálida estrela cintilante, tão longínqua e empalidecida que se diria poeira esquecida no firmamento. A esta hora, no silêncio morno dos desertos e na atroar galcial das cidades haverá por certo alguém para quem a vida, na sua pacatez, equivalerá ao mar da tranquilidade. Acenar-lhes-ia se os visse, se os sentisse ou se na sua longínqua diferença neles me reconhecesse. Volto porém para dentro, negando-me essa familiaridade. A esta hora absurda, vista a janela, o obtuso do intervalo e a palidez da poeira, reentro em mim e comigo adormeço.

8.2.06

A esquina da memória

É só mesmo porque, ao dobrar a esquina, nos cruzamos com a memória. Depois vem o quotidiano e soterra-nos com os pormenores do que fica. Podem por isso demolir o prédio, varrer a esquina, pode mesmo acabar o cinema e eu ter sido um dos últimos a passar por ali. No dia em que acabar a Europa, terá ficado, deste cinema, a esquina e o jardim ali tão perto, o da Parada.

4.2.06

O desespero em estremocense


Não, eu não queria estar aqui num hotel trancado, confinado a um quarto, amarrado a ter de trabalhar. Não, eu não queria que fosse isto, por ser um fim de semana. Eu queria, que fosse todos os dias e assim acontecesse pela beleza do que se vê, pela paz que se sente, pelo desejo que se tem. Eu sei que é Estremoz, eu sei que hoje é sábado, eu sei que já não posso dormir mais, eu sei que não quero ir.

1.2.06

Uma folha


Hoje é apenas uma folha amaralecida num álbum desarrumado num sótão. Mas houve um momento em que, por um instante, estes homens suspenderam a sua vida para um instantâneo, como se a eternidade os recolhesse. Hoje estarão todos mortos, e ninguém chorará já convictamente a sua perda. Não sei se algum deles foi o que trouxe a fotografia, ou se ela veio no lote das que se vendem por aí, ao molho, pelas feiras de antiqualhas. Está escrito a lápis que tudo isto foi em Nankin, não sei como, nem com quem, nem sequer porquê.

28.1.06

O dia da visita

Talvez por ser sábado de manhã, hoje quando passei, não havia ninguém na rua. E, no entanto, o prédio ali estava. Por detrás da sua majestade caduca, ainda restavam centenas deles, aqueles que a família não queria ou já nem família teriam. Os vidros partidos, o reboco esboroado, no interior um frio tão glacial como o que lhes vai na alma. Amanhã, por ser domingo, talvez venha o sol e uma ou outra visita apareça com um farnel e umas revistas, para os entreter por uns momentos. Vão-se depressa, as crianças fartas de velhos, os adultos com medo de o serem. Hoje, depois de eu ter passado, e porque é sábado, não ficou ali mais ninguém.

26.1.06

A mala por fazer

Às vezes é só o desejo ferroviário de partir. O colocar a mala na rede por cima do assento. Esperar que ninguém nos acompanhe na carruagem. Abrir o jornal e adormecer, na ronronante viagem. Num qualquer apeadeiro, perdidas já as saudades de tudo, e ainda sem saber para que destino, mirar todos e cada um dos que entram a bordo, como se houvesse neles uma razão que a nós nos falta. Às vezes é só ficar eternamente no cais, a mala por fazer. um itinerário pelos carris do sonho pelas estações da ilusão.