11.11.07

O sonho do céu

Ao olhar para a altura das torres, elevadas nos céus, há um homem na terra que lhes sente a inclinação, prenunciando-lhes o desmoronamento. Por um instante a ilusão de um tempo imóvel povoa-lhe o espírito. Ao olhar para a altura das torres não há nos céus nada ou alguém que se apiede da sua loucura de conviver com os deuses, vivendo no inferno.

16.10.07

Água castanha

É uma Igreja Baptista e é uma loja de venda de Coca-Cola. Ambas facetas de uma fé, a primeira no etéreo divino, a segunda na gaseificada profana. É a água castanha que revolucionou o mundo, com açúcar e gás carbónico. A foto data de 1940. Na altura os brancos concorriam através dela, com a água de quinino, inventada pelos índios, a água tónica.

18.9.07

O muro solar

É-se novo quando se vê a presença do Sol numa parede. Depois, o tempo encarrega-se de apagar a ilusão e de nos roubar a capacidade de ver. No final de tudo, piedosa, a Natureza dilui-nos nas estrelas, na aurora boreal da essência universal. Agradeço à Ana por me ter dito que havia este pior iraniano para quem a vida é o sonho de ser tal como se vê.

3.9.07

Os provadores de vinagre

A imagem é profundamente simbólica. Encontrei-a por acaso e nela estava lá tudo. Buda no meio, expressa o amargo, tal como a vida o é, enquanto fruto do desejo, o aniquilamento da vontade, a apatia contemplativa. À sua esquerda, Confúcio é a expressão da rigidez organizada ante o azedume do que se sente tal como é, a imposição da ordem, a interiorização da disciplina. O terceiro dos provadores de vinagre é Laotzé, o que sorri, enfrentando com beatífica alegria de alma a tristeza do real, o que frutifica a semente do ódio em pétalas de amor.

2.9.07

Tréguas para o Amor

Lê-se na biografia comum do Projecto Vercial, que «Fernando Echevarría nasceu a 26 de Fevereiro de 1929 em Cabezón de la Sal. Cursou Humanidades em Portugal, Filosofia e Teologia em Espanha. Exilado em Paris desde 1961, parte para Argel a fins de 1963, regressando àquela cidade em meados de 66. Aí reside desde então». Parece que não, residirá no Porto, diz o Diário Digital. Ou será na capital francesa, como informa a RTP? Tanto faz, esta noite residiu aqui no meu pensamento. A «In-Libris», do Porto, fá-lo constar do seu último catálogo; o blog Almocreve das Petas recorda-o.
Fernando Pesadelo de Ando Echevarría escreveu «Tréguas para o Amor» em 1958, numa edição de autor. Terá sido o seu segundo livro, o meu pensamento para este domingo.

12.8.07

Manuel Laranjeira

«O seu corpo, reduzido a quase um esqueleto nas últimos dias em que guardava o leito, sumia-se sobre as roupas, depois de morto, apenas se divisando a sua cabeça de farta cabeleira, a boca aberta como se ainda pudesse dizer a todos: “Irreverente como sempre fui, até me ri da Morte porque me antecipei a ela…”». Encontrei a frase sobre o seu suicídio e a foto num blog dedicado a coisas diversas, da política à cultura .
Na foto, sentada a Augusta, sua amiga íntima, a quem ele dedicou muitos dos seus angustiados pensamentos, num «Diário», cuja leitura terminei há algum tempo, depois de, num primeiro relance e ter parecido, injustamente, pateticamente ridículo, como todos os escritos amorosos.
Todos os seus escritos manifestam a visão psicopatológica, nele quase obsessiva, enquanto explicação para a complexidade do ser humano e da errática sociedade. A sua tese de licenciatura, galardoada com dezanove valores já o prenunciava, intitulando-se «A Doença da Santidade (ensaio psico-patológico sobre o misticismo de forma religiosa)».
Ontem à noite estive com as «Prosas Dispersas»; mais uma horas e, acabado o livro, talvez consiga falar dele, quando me esquecer de um frase sua « sofro da horrível desgraça do homem que olha para a vida e sente que já não pode ser enganado…».

10.8.07

Geometria do Abismo

O quadro é da Elisa Maria Sousa. Chamou-lhe «Geometria do Abismo», em homenagem amiga ao blog do mesmo nome. É uma pintura apelativa, quem a vê, vê-se de dentro do quadro. Obrigado, pois, mesmo!

31.7.07

A mão indefinida

Debruçado sobre si, como se em amurada de navegante barco num gesticulado adeus ao cais, olhava, míope, para cada um dos interstícios daquele enigmático móvel que era agora, mais do que a decoração única do seu local, a única companhia do seu ensimesmamento.
Com o tempo dedicara-se-lhe.
Na aparência exterior uma caixa, de antiquíssima madeira, lenho de velha árvore, uma de tantas de milenária floresta, oriunda do desconhecido, ali chegada Deus sabe por que mãos humanas, poupada, o Diabo ignora a que riscos da existência animal.
Sobrevivera, pequeno cofre e minúscula arca, couraçando-se naquele exterior paralelipipédico, ferragens cobreadas a dar-lhe austeridade, a ligeira ferrugem nas dobradiças a criar a ilusão de que era essa a causa da sua impenetrabilidade.
Agora estava ali, num lugar estranho, longínquo, ante umas mãos de si ciosas, percorrendo-lhe, como se a um labirinto sensível, os tímidos caminhos do que pareciam modos de lhe aceder, a inesperada forma de despudorar definitivamente o seu segredo.
Debruçado sobre si, estava um homem, navegando o mar azul de um adeus marítimo, a mão indefinida para o cais da vida a que jamais regressaria, míope de desejo, ela como companhia e essa noite a sua única decoração.
Ninguém sabe como se deu o milagre, ou o dia milagroso em que ocorreu o regresso aos vinte anos da ilusão, o coração apressando-se ante aquela reencontrada memória.
Ali estava, porém, e com ela a doçura passada e com o seu regresso o inesperado rubor da lembrança.
Ser-se novo e viver com isso a loucura entranhada de um mundo por haver, ser-se novo e ficar-nos na retina o momento único em que o mundo parece exemplo gritado aos outros, ser-se novo e ser a nossa nudez da alma tão altiva que nem o despido corpo nos envergonharia tanto. Ser-se novo, enfim, e termos de nós o anseio e dos outros a esperança.
Ninguém sabe como se deu o maravilhoso momento em que a antiquíssima caixa, de milenária madeira, sussurrou o milagroso modo de ser possível conhecer de si o que nem ela sonhava ser possível dar-se a conhecer.
Esgotados de nocturno cansaço, o mundo deu com eles, dias depois, o sol a pique, ciosos do caminho sensível da sua memória comum, a espuma do mar navegado encharcando-lhes a alma, esperançosos no que não fora, ansiosos pelo que não poderia ter sido.
Debruçado sobre si e a si dedicado, um homem escrevera este bilhete, sem razão, nem motivo, ou sequer o pretexto de uma intenção.
Lido por tantos outros, nenhum jamais soube como foi possível. O instante em que se dera o espasmo rouco da criação perdera-se no tempo, esgotara-se no espaço, findara-se aqui, neste momento de lembrar-te, nesta forma de esquecer-me.

22.7.07

Um doloroso silêncio

«Quando falar ou estar calado já é indiferente», é melhor já nem falar. Aprendi-o esta madrugada, ao ver o «Cinema Paraíso», compreendi-o depois. No olhar de espanto de uma criança, o mundo da ilusão, na escuridão de um cego, o mundo da fantasia. «Agora que ceguei vejo melhor», diz Alfredo, o velho projeccionista da aldeia de Giancaldo. O filme é um hino heróico ao amar impossível, os beijos cortados.

10.6.07

O acaso e a necessidade

Para os que se impressionam com o acaso, às vezes o olhar para uma fotografia é apenas o pretexto para uma pessoa se espantar. Aconteceu hoje, ao tirar da estante, sem razão, uma biografia do escritor Joaquim Paço d'Arcos, escrita por Álvaro Dória, em 1962, editada pela defunta Arcádia.
No livro consta uma foto, na qual o escritor está acompanhado por sua mulher, Maria da Graça de Spencer Moura-Brás.
A coincidência está em que esta senhora teve a gentileza de aparecer em Sintra, quando ali lancei o livro sobre a morte do actor Leslie Howard, porque o conhecera em Lisboa, quando ele aqui se deslocou em 1943, antes de partir para o voo fatal.
A coincidência está em que o biógrafo escreve que o casal regressou da sua viagem de núpcias às Ilhas da Madeira e Açores no dia 25 de Março de 1949, precisamente aquele em que nasci.
A coincidência está em que eu tinha estado a ler, em diagonal, uma recensão a uma biografia de Walt Disney, precisamente quem aparece na fotografia e a dedica, autografando-a, ao casal português.
É caso para dizer que o acaso ainda é, com os inesperados que me traz, o que me anima e me convence na predestinação para a alegria.

15.5.07

O mundo de Sophia


Um homem chega a casa, moído de trabalho e sabe que o espera, na sua casa ou vindo da casa do vizinho o som de um jogo de futebol. Um homem vai ao café e corre o risco de a conversa ao balcão ser a propósito de futebol. Um homem foge para a praia e tem fortes probabilidades de acertar-lhe no toutiço uma bola de futebol.
Mas um homem, de meia idade, daqueles que a vida moldou nos tempos da lei seca do recato e do pudor, ao saber das notícias desgraçadas deste mundo infeliz, dá de caras com esta: Sophia Loren faz strip-tease se o Nápoles subir de divisão.
Conta-se, como verdade ou anedota, que a senhora, em cujo corpo o Senhor prodigalizou a sua generosidade, foi recebida pelo Papa João XXIII, em audiência. Vestida com um profundo decote, do qual saltavam, em hossana, como num Gloria in Excelsis Deo, portentosos frutos, quais os da árvore do Paraíso, ajoelhou-se, em genuflexo respeitoso para beijar o Pontifício anel. Antecipando a visão tentadora da carne e a danação do pecado que ali se lhe abria, lúbrica, à visão, Sua Santidade não se terá contido e semi-cerrando os olhos, murmurou um «ai, meu Deus!» de embaraço reprovador!. Diz-se que do alto da nave uma voz cava e gutural, a voz profunda do Todo-Poderoso, se fez ouvir num «Obrigado, João, por me teres chamado!».
Um homem chega a casa, moído de trabalho, e, perdido na memória da sua meia-idade, dá graças a Deus pelo que leu no jornal, liga a TV, na ânsia de que o Nápoles ganhe, hoje já!

Contos do desaforo

Não sei como conseguirei conviver com este novo ser que se albergou no interior do meu conturbado viver, flor de ficção poética no casco envelhecido da árvore das obrigações. Para já decidiu falar através deste livro, como um sonâmbulo, liberto das conveniências. São contos. Se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume. Não sei como será nem como foi. Está aí, inevitável e embaraçoso.

13.5.07

Vinte anos

Quando se tem vinte anos a vida parece infinita, aos cinquenta e oito parece eterna. É nesta perenidade do aguentar que reside o segredo do tempo circular. Daqui a vinte anos, estando por cá, falamos. Até lá, boa viagem a todos!

5.5.07

O homem aparente

Há um momento na vida em que uma pessoa olha para si e vê que houve um tempo que já se foi. Depois, é o problema do ter valido ou não a pena, o haver ou não muito a esperar do que resta. Claro que quando se tem entusiasmo, tudo isto se ilude. A agitação simula actividade, esta, vivida frenéticamente, alegria de viver. Se me permitem falar de mim, não me queixo. Ser fictício, gostava só de estar um pouco menos gasto, com mais cabelo e ir mais vezes ao barbeiro, por nada de essencial, apenas por uma questão de aparência!

25.4.07

O Cosmonauta

«Eis o Vademecum do Cosmonauta,uma autentica jóia eis a verdadeira caixa de pandora! Este espaço virtual achado pelo explorador, permite-lhe beber do seu tesouro, e juntamente com o seu criador e os eventuais leitores irá entrar num campo de descoberta, povoado pela imaginação e pela criatividade.», Hugo Barreiros escreveu no seu novo blog «O Cosmonauta». Voga pelo espaço sideral, da terra alheado, imerso no mar da sua imaginação delirante.

5.4.07

A terra dos meus

Vista daquela enregelada janela, em que o próprio vidro parecia gelo, a montanha abraçava-nos, amiga, envolta em bruma e escondida na distância. Naquele dia, sentados à mesa, a toalha dos domingos, o guizado dos dias de festa, o nosso pai dividia entre nós o pão comum.
Sentido hoje, memória de um tempo feliz, desse dia ficou apenas esta fotografia.
Olho para ela com a nostalgia de quem se procura. Não mais lá voltarei, à terra dos meus onde nada me pertence e a tudo sou alheio.

5.3.07

A Casa dos Artistas


Um pedaço incerto de papel, o escorrer da tinta, os primeiros passos na arte. Criou um blog, uma janela aberta sobre o mundo, para mostrar o que faz e chamar outros para que o sigam. Chamou-lhe, sedento de um lar, a casa dos artistas.

18.2.07

Uma filha, um mundo

Vive, enfim, só. Mandou-me uma mensagem com o número do telefone. Não telefonei, para que aprendesse, atónita, o que é alguém começar por si. Ontem falámos, brevemente. Tinha ligado a televisão para sentir companhia. Aquém do fosso da separação, um pai fingia-se indiferente, o coração apertado.

28.1.07

Em estado puro

Há dois anos espantou um alfarrabista de rua ao interessar-se por um livro sobre Picasso e ao insistir comigo para que lho comprasse. Hoje, um dia gélido, ao passarmos pela mesma rua, pelo mesmo alfarrabista, este lembrou-lhe a história que não mais esquecera. «Talvez a sensibilidade pura das crianças entenda o essencial daquela forma de ser arte», arrisquei com a minha lógica redonda de adulto. «Não é por isso», respondeu-me, amigável, como quem não quer melindrar o pai, «é só mesmo porque gostei». Chama-se Afonso. Oxalá se conserve assim, em estado puro.

21.1.07

Uma vida que nasce

Há no momento mágico em que uma mãe volta a sê-lo, através da filha que criou, o indizível da Natureza a cumprir-se. Uma só coisa pode exprimir o sentimento de gratidão das almas circunstantes, ante este renovar-se contínuo da nossa vida: um infinitamente amigo silêncio, o nada dizer, por estar tudo dito. Há no momento único em que, atónitos, sobrevivemos no futuro, a magia de um milagre, o inesperado de uma oração. Parabéns às duas, à filha e a sua mãe.

8.12.06

O meu Hugo!

Eu vim aqui dizer ao mundo inteiro que hoje é o último dia em que este jovem é menor. Amanhã entra na categoria do «senhor Hugo». Um pai cumpre-se quando um filho segue o seu caminho. Foi sempre assim e assim será. Boa sorte, pois, meu rapaz! E não te esqueças, já agora de arrumar o quarto e a loiça da cozinha! Não é por nada. É só para eu me orgulhar de ti!

Não digas nada!

A livraria era um labirinto de acasos. Encontrar um livro um exercício de persistência, olhos atentos, em cada recanto, uma surpresa. De encantamento em encantamento, reencontrei-a, quase inacessível, ali, a Dalila Pereira da Costa e a sua «Ladainha de Setúbal», além uma linha de verso, o «trago no sangue o mistério daquele resto de estrada que não andei», nos «Versos Quase Tristes» do Sebastião da Gama. Ia já de saída, o guarda-chuva quase na mão para enfrentar o real exterior e nele a morrinha que anunciava a noite, quando, de entre os livros me perguntaram, como se ao advogado se dirigissem, ao descobri-lo: «o senhor tem um caso cá em Setúbal?». Ia a responder que «sim, com a Serra-Mãe», quando um sentimento íntimo de acanhamento adolescente me sussurou ao ouvido: «não digas nada».

28.11.06

Um anseio de vida


Encontrei-a, amarelecida, esta fotografia. São os que me deram o ser. Ao microfone o meu pai, em frente a minha mãe. Vinte e cinco anos de idade era então apenas o que os separava. Numa insignificante salinha, emitia em onda curta, com dez watts de potência, o CR6RE, na banda dos quarenta e um metros e quarenta, na frequência dos 7 245 kilociclos. Eram os dias da rádio, os discos pedidos, tocados ainda a setenta e oito rotações. Olhando para o que a vida fez destas ondas de esperança, eu decretaria, se tal me fosse possível, o absurdo do que sucedeu. Neste final de dia, olhando para o céu a arrefecer, nocturno, tento encontrá-las, perdidas no éter, as palavras ditas a este microfone, num tempo em que a ideia de mim era apenas uma esperança de vida, um anseio de viver.

2.10.06

As nuvens

Houve um tempo de Verão em que para ele o céu teve nuvens e houve um tempo em que com elas lhe chegava, tímida, a lua do entardecer. Depois, tudo se dissipou. Hoje deu que chovia torrencialmente, ante a indiferença de um dormir extenuado. Eis o Outono e com ele o cair, uma a uma, das folhas da ilusão.

8.7.06

Uma vida por viver

Houve um tempo em que todas as escolhas eram possíveis, o mundo dos outros podia não ser o meu. Depois, o tomar de empréstimo vidas alheias, olhar literariamente a melancolia da vida por uma janela fechada. Houve um tempo em que eu tive cinco anos. Hoje, aos cinquenta e sete, vivi a vida que havia para viver.

25.6.06

O anjo caído

Loucos desejos, crucificadas condições. Na hora da oportunidade, reclina-se o homem sobre o manto do pecado. Não fosse ele simulacro ridículo do divino, ousaria o inferno e cairia. Assim entrega-se molemente, tentando manter-se de pé.

21.6.06

Minhau!

Musculado, musculoso, imponente, majestoso. Em torno de si, o arquétipo do irrealizável, um estrepitar de fantasias de vigor e de potência. Creio que era porteiro de bar pela noite, dormia pela manhã, ocupava a tarde em musculação. Uma americana esfaimada levou-o como berloque. Hoje é um penderucalho, entre chás e biscoitos. Vai ao super e arruma camisolas de lã entre rendinhas femininas. Talvez faça miau. Já nem sei.

17.6.06

A eternidade em cada instante

Se um homem soubesse o que a vida lhe dá, trazido pelo excepcional do acaso, como a chuva inesperada ou este desejo de precipício, viveria. Em cada dia da sua vida, deixar-se-ia seguir, os ventos alíseos do afecto, a vaga refrescante de um grande mar. Mas um homem não sabe. Só quando se apercebe que teve vinte anos revê a sua vida, mas já viveu. Se um homem soubesse o que é ter por companhia a tristeza aos vinte anos, e ela ficar-lhe, como uma velha fotografia, desbotando-se-lhe no tempo, roubando-lhe o entusiasmo de viver, compartilharia com tantos a sua solidão. Se um homem soubesse que cada instante tem em si a eternidade, diria bom dia ao dia e viveria definitivamente aquele dia.

Mais uma vez


Em cima de um monte de escombros, na esperança de poder recomeçar, há um homem. Entre os destroços do que em tempos foi uma vida, uma casa, uma família e um lar, esse homem está ali como se pela primeira vez. Descontado o desânimo, a força férrea amarra-o ao desejo de reconstruir. A sua prisão é essa raiva à adversidade. Na esperança de poder recomeçar, entre um monte de escombros há um homem, mais uma vez.

16.6.06

A infinita regressão

Chama-se «A mad tea party». Desenhou-o John Tenniel, que faleceu em 1914. Tenniel foi o ilustrador dos livros do reverendo Charles Dodgson, que passou para a História da Literatura como o autor dos livros de Alice, sob o nome de Lewis Carroll. Especialista em lógica, ele coloca no diálogo do que a tartaruga disse a Aquiles o paradoxo de Zenão sobre a infinita regressão. Sucede assim cada vez que a verdade de P depende da verdade de P+1. O primeiro que quebrar a cadeia da verdade, tropeça na solidão da mentira. Só progredindo nos salvamos.

15.6.06

Um dia argênteo

É a transmutação alquímica da vida, o local onde o sal do mar se cruza com o doce dos rios, o instante criador, o nascer de um sentimento. São os fuidos vitais em ebulição, o corpo a ferver, a alma a sangrar. Tudo isto pode ser reduzido a uma fórmula ou a uma equação ou compreendido poeticamente, num abraço fraterno, na volúpia de um desejo, no vazio de se estar só.

13.6.06

Eu vi um sapo

O sapo feio, o que passa as noites no pântano a coaxar, descobriu um dia que em seu redor, as princesas se tinham transformado em rãs. Se houvesse histórias de beijos que os transformassem em príncipes dos afectos e reis do amor, eu mesmo secaria os charcos, treparia às árvores e, em pássaro transformado, aprenderia a voar.

10.6.06

O horizonte lunar

Enfeitiçada lua em noite quente, ei-la a inundar ventres de loucuras, transtornando as mentes já despertas para a vida. Surgiu-me, assim, inesperada, como se o acaso negro de uma doença ou o presságio de um sentimento amável. Nunca mais da mesma janela eu te verei, ó lua, minha companhia desta noite. Silenciosos, os pássaros, aninhados na sua plumagem, nem ousam. Ao longe a cidade, agacha-se como se para dormir. Um resto de luz despede-se em azul. Enfeitiçada, louca e transtornada, a lua inicia a sua subida, rápida, na parábola infinita dos céus. Rezaria, sabendo, pelo bem de todos os que são bons. A silhueta da tristeza marca-me o horizonte do impossível.

Mulher em casa de homens


Envolto na luxúria do sonho, entre o inesperado de um sorriso breve, a meia-cara, o cálculo de um olhos convidativos, enevoado pela duvidosa mistela peganhenta que se colava, queimando-a, garganta abaixo, o homem sorria. No alarve do despropósito, mal se ouvia o indiferente pianista martelando teclas, símeo musical daquele local animalesco. As paredes escorriam um ambiente de farsa encenada e de amores de encomenda. Foi então que ela entrou, varrendo em círculo o soturno local, como se buscando a sua presa. Casa de carícias de aluguer, há nela sempre uma que mais seduz, fingindo-se a escolhida. Minutos depois, sentavam-se as duas, ela a estranha mulher em casa de homens, a outra a indiferente criatura apta para o que viesse. Foi então, no preciso momento em que tudo se explicaria, que o homem acordou, alagado no seu próprio suor, a ressacada de um noite de solitária bebedeira babada no lençol, um longínquo piano num rádio que ficara por desligar. Nesse domingo de manhã, o sol começava a raiar e com ele a dor profunda do não saber sequer o que fazer.

9.6.06

O lugar da indiferença

Lembro-me da sensação de frescura nas costas, a imiscuir-se pelo pano cru da camisa, como se a arrefecer-me os ímpetos ansiosos de ti. Lembro-me de os nosso pés nús afagarem o musgo que atapetava o chão daquela cratera que a Natureza nos dera, como o refúgio dos nossos sonhos. Lembro-me das palavras amáveis e das esperanças que nos demos, de mão dada, a um e a ao outro, a jura de que havia lá fora, para além da luz, um mundo que queríamos construir para nele viver. Hoje aqui estou, refugiado neste lugar afundado e de todos escondido, enregelado de tristeza, calçado de indiferença. Eu comecei a morrer na tua vida, só a luz me cega, cruel e acusadora. Tudo o mais é como se não existisse.

6.6.06

Agora que o dia cai

Não há seguramente, pelos muitos vexames que o dia nos trás, cena mais humilhante que um dia findar, de borco, na cama solitária que ficou por fazer desde a manhã. Acumule-se a loiça pela cozinha, que há um halo de festa que perpassa ainda por entre a desarrumação. Haja roupa por lavar e ainda um pouco por todo o lado, que um perfume de festa estouvada pode simular-se com esse vestígio do despir-se descuidado, uma peça por cada sala. Mas agora que o dia cai e uma noite morna começa lá fora e com ela uma cidade que surge das entranhas do seu bom viver, resta-me dormir profundamente e um ressonar primitivo a marcar audivelmente a animalidade de tudo isto. Não há vexame maior do que a humilhação de uma cama solitária.

5.6.06

A esplanada da vida

Escorria-lhe pelas costas um suor ácido de uma calor irritante, fechavam-se-lhe os olhos de cansaço. Já nem a dor formigueira dos braços fatigados sentia, as mãos cortadas da pega de uma pesadíssima mala. Chegara no comboio da tarde. Em frente a si, uma cidade morna olhava-o com estranheza. Um homem chegava, ao apeadeiro da vida, arquejando, ajoujado à carga do seu orgulho. Sentou-se, enfim, num recanto sombrio, protegendo-se da vergonha de ser visto neste transporte nómada de si. Ninguém sonha o que um homem sente, ninguém sabe o que um homem cala.

2.6.06

A ira dos céus

Ficou-me para sempre o ar severo, a contante insatisfação, o esgar reprovador. Cada gesto, um simples soerguer de sobrancelhas abatia-se sobre nós como se a ira dos céus nos fulminasse com relâmpagos. Lembro-me que ao domingo nos davam arroz doce. Lembro-me dos que, de castigo, ficavam a ver os outros comer. Alguns choravam por não terem uma mãe, outros já nem se importavam com isso. Lembro-me deste dia, de cada um de todos esses dias. A doença dos meus afectos nasceu aqui, como uma crise de crescimento.

29.5.06

QTA, anule a mensagem anterior

E de súbito, por entre o zumbido intermitente mil martelos ecoaram na minha cabeça. Eram quase quatro horas da manhã, a hora em que estar sozinho mais dói. Longe, quase imperceptível, um som evanescente e no entanto claro, familiar. Súbito desperto da hipnose nocturna do éter, três letras, três magníficas letras, pelas quais eu parecia ter esperado toda uma eternidade: QSL, QSL, o sinal para acusar a recepção de uma mensagem. Suspenso por um instante, sabendo-a ali, esperei até ao desespero da alvorada. Raiava o sol, o sinal perdera-se, uma tempestade magnética varria-me o espectro. Era impossível esperar mais. Passaram anos até saber quem era e como tinha morrido naquele instante.

27.5.06

O homem em azul

Sábado de manhã. O sol saíra já, furioso e mau, crestando tudo sob si, enlouquecendo os humanos, convocando raivosas moscas, animado por um coro matraqueante de ralos. Eu esperava num banco de pau de um miserável apeadeiro. Comigo uma mala, dentro dela, tudo o que me restava. Há na vida aqueles momentos em que um homem vive o momento único de ter de escolher o quê e sabe então, como se pela primeira vez, aquilo que é e o que quer. No meu caso, nómada irrequieto, tudo se resumia a uma mala a meu lado. Foi então que ele surgiu. Acordara, convicto, pela madrugada, como sempre e como de habitual, ainda à luz incerta daquelas horas primeiras, vestira, lento, a fardeta envelhecida de uma sarja a esboroar-se. Na mesa, na única mesa do único quarto da única casa que conhecia, a bandeira da autoridade ferroviária, o sinal de vida ao qual os maquinistas confiavam as suas vidas. Empunhou-a alquebrado. Ronceiro, apinhado de gente, aproximou-se pastoso o comboio que me tiraria dali. Um sentimento de dor esganou-me o coração como se, ao partir, cometesse o crime de não o levar.

26.5.06

A ave do paraíso


Aguilhoante sentimento de ausência, entre a ânsia de regaço e as bicadelas pecaminosas da falta. Ali estava, diante de mim, ao virar de uma esquina, no final de um longo trajecto, de sala em sala, galeria em galeria, secção após secção. Esquálidas virgens medievas, reprimidas monjas holandesas, debochadas flamengas de dentes cariados, tinha visto todas. A piedosa mãezinha, a sonhadora donzela, a maléfica rainha. Só que chegara, entretanto aqui. A portentosa natureza em seu esplendor frutífero, a ave rapace em seu apetite voraz, tudo ali me era dado, como se ao alcance de um gesto, à espera do atrevimento das mãos. Foi então que o porteiro nos fez sentir que eram cinco horas. Hora de fechar. Amanhã abrimos pelas dez. Uma boa noite para todos.

25.5.06

O velho Chevrolet

Lembro-me que tinha o tabelier distinto em madeira, os estofos cheirosos em pele e um porta-luvas imenso. Lembro-me dos cromados do pára-choques, os faróis rutilantes. Lembro-me do seu flamejante vermelho. Lembro-me que mal chegava à janela, de pequeno que era. Lembro-me como era feliz sem reparar que havia tantos que andavam a pé. Lembro-me sobretudo que nada disso me fazia falta ou tinha importância. Hoje esqueci tudo. Houve um tempo em que os automóveis tinham os pneus pretos com uma cercadura branca, os homens usavam sapato escuro com peitilho branco. Houve um tempo em que nada disso parecia ridículo e a humanidade tinha tempo para cuidar de si. Houve um tempo em que se fabricavam automóveis e não electrodomésticos com motor.

22.5.06

A mãe Natureza

Longe de tudo e a tudo indiferente, o sol ainda por chegar, a névoa a sombrear a paisagem, um homem pesca. Longe, a cidade dorme, num tumulto inquieto de responsabilidades, pesadelos de vidas desejadas e ansiosas, despertadores estridentes e inamistosos. Longe de tudo e a tudo indiferente um homem, este homem, confunde-se com a paisagem. Uma névoa piedosa sombreia-lhe o eu, diluindo-lhe o ser, recebendo-o no regaço maternal da Natureza. Longe, muito longe, a cidade desperta, sem conseguir acordar.

14.5.06

O indiferente Buda

Tem de facto um ar ridículo, e tudo aquilo é de facto incompreensível. De quem o deu, já ninguém se lembra, nem a que propósito. As mais velhas da família recordam-se todas de que aquilo já andava lá por casa quando elas brincavam com bonecas de trapo. Quantas tardes passei com a gramática francesa aberta a esmo, a olhar para aquilo só por não haver nada de melhor para se poder olhar, esgotado de verbos irregulares. Um dia talvez se quebre, o olhar atónito de porcelana, o lápis espetado, o indiferente Buda. Nesse dia, colar-se-ão os cacos, pela certa. Ao fim de tantos anos, já não conseguiríamos passar sem ele, o ar ridículo e incompreensível daquilo. Cada um de cada geração, reconhece-se ali, ninguém se lembra já a que propósito.

11.5.06

A multiplicação do eco

Barricara-se ali quando a fui buscar. Entre entulho e fermentações muitas de dejectos vários, um cheiro pestilento atroava-me os sentimentos. O próprio silêncio fazia eco, multiplicando-se entre si, nada mais havendo do que o vazio. Não havia canto de parede que não estivesse escrito, palavras empedernidas de raiva, rasgadas com as unhas a sangrarem-se contra o cimento. Estava só. Pressentindo ao que eu vinha, olhámo-nos longamente. As lágrimas escorriam-lhe pela face. Perguntei-lhe, como se a medo, se queria vir. Respondeu-me, como se envergonhada, o murmúrio de um sim. Saímos os dois. Nada havia ali que lhe valesse a pena trazer consigo. A casa ainda lá está. Outros a habitam: a família sucessiva dos desesperados, de quem nos esquecemos no dia a dia formigante das nossas vidas. Eu de insignificante gravata ao pescoço, a pastinha ridícula na mão.

6.5.06

Para o dia da mãe

Quantas vezes eram só duas linhas, o que podia caber num simples postal. Se houvesse tempo para se pensar ia em cada letra um pensamento, em cada palavra um sentimento, em cada parágrafo um anseio. Assim era só a presença e a recordação. No «nós por cada todos bem» e no «espero que ao receber esta» estava, afinal, já tudo dito. O mais, eram as coisas ridiculamente carinhosas como o «olha lá, meu filho, não apanhes frio» ou «o pai não se esqueça de tomar seus os remédios». Amanhã, ao virar a folha de um álbum, um coração de mãe, a memória gasta pelo tempo, a sensibilidade ensarilhada pela velhice, dirá à vizinha do lado, pela milésima vez: «era este, um bonito rapaz. Escrevia-nos cartas tão lindas. Acho que ainda as tenho ali». No mais, é um mundo que já morreu.

3.5.06

Um deus por haver

A nossa vingança, depois do que sofremos ali, foi ter chegado um dia, sem aviso, e encontrar pela frente estes escombros do que foi para muitos uma prisão, a ruína do que para tantos foi um hospital, a degradação do que para todos foi o não termos outra vida para viver. Ao domingo alguns tinham enfastiadas visitas, outros trancavam-se por dentro, fingindo não as querer. De quando em vez um sumia-se. Imaginávamos ter morrido, para ficarmos contentes com a sua ausência. Uns dias depois mudava-se de assunto. Como isto nos entristece já sem tristeza. Quantos cravámos raivosas as unhas despedaçando-as contra aquelas paredes que hoje, ridículas, mal se têem de pé. Eu sei que não há Deus, pois a haver, teria vivido aqui, nesta miséria de ter sido nosso irmão. A haver, um dia encontrávamo-lo enforcado. Ao terceiro dia estaria enterrado com uma ladainha barata e umas pazadas de cal. Haja pena, por isso, pelos que não voltaram.

1.5.06

A invenção da memória

Mal se adivinha hoje, mas eu passava por ali aos domingos pela manhã. Eram tempos em que não havia lugar para onde ir, pessoas novas para conhecer, acontecimentos a que pudessemos chamar novos. Ao chegar perto, os passos a aproximarem-se, retinha a marcha, sôfrego de que alguém aparecesse. Aconteceu uma vez só, um vulto a fechar a janela que hoje apodreceu na realidade do que se vê. Se eu tivesse algum dia subido, teria tentado saber como se inventa o amor. Assim, ficou apenas esta grosseira memória, carcomida e enxovalhante.