25.6.06

O anjo caído

Loucos desejos, crucificadas condições. Na hora da oportunidade, reclina-se o homem sobre o manto do pecado. Não fosse ele simulacro ridículo do divino, ousaria o inferno e cairia. Assim entrega-se molemente, tentando manter-se de pé.

21.6.06

Minhau!

Musculado, musculoso, imponente, majestoso. Em torno de si, o arquétipo do irrealizável, um estrepitar de fantasias de vigor e de potência. Creio que era porteiro de bar pela noite, dormia pela manhã, ocupava a tarde em musculação. Uma americana esfaimada levou-o como berloque. Hoje é um penderucalho, entre chás e biscoitos. Vai ao super e arruma camisolas de lã entre rendinhas femininas. Talvez faça miau. Já nem sei.

17.6.06

A eternidade em cada instante

Se um homem soubesse o que a vida lhe dá, trazido pelo excepcional do acaso, como a chuva inesperada ou este desejo de precipício, viveria. Em cada dia da sua vida, deixar-se-ia seguir, os ventos alíseos do afecto, a vaga refrescante de um grande mar. Mas um homem não sabe. Só quando se apercebe que teve vinte anos revê a sua vida, mas já viveu. Se um homem soubesse o que é ter por companhia a tristeza aos vinte anos, e ela ficar-lhe, como uma velha fotografia, desbotando-se-lhe no tempo, roubando-lhe o entusiasmo de viver, compartilharia com tantos a sua solidão. Se um homem soubesse que cada instante tem em si a eternidade, diria bom dia ao dia e viveria definitivamente aquele dia.

Mais uma vez


Em cima de um monte de escombros, na esperança de poder recomeçar, há um homem. Entre os destroços do que em tempos foi uma vida, uma casa, uma família e um lar, esse homem está ali como se pela primeira vez. Descontado o desânimo, a força férrea amarra-o ao desejo de reconstruir. A sua prisão é essa raiva à adversidade. Na esperança de poder recomeçar, entre um monte de escombros há um homem, mais uma vez.

16.6.06

A infinita regressão

Chama-se «A mad tea party». Desenhou-o John Tenniel, que faleceu em 1914. Tenniel foi o ilustrador dos livros do reverendo Charles Dodgson, que passou para a História da Literatura como o autor dos livros de Alice, sob o nome de Lewis Carroll. Especialista em lógica, ele coloca no diálogo do que a tartaruga disse a Aquiles o paradoxo de Zenão sobre a infinita regressão. Sucede assim cada vez que a verdade de P depende da verdade de P+1. O primeiro que quebrar a cadeia da verdade, tropeça na solidão da mentira. Só progredindo nos salvamos.

15.6.06

Um dia argênteo

É a transmutação alquímica da vida, o local onde o sal do mar se cruza com o doce dos rios, o instante criador, o nascer de um sentimento. São os fuidos vitais em ebulição, o corpo a ferver, a alma a sangrar. Tudo isto pode ser reduzido a uma fórmula ou a uma equação ou compreendido poeticamente, num abraço fraterno, na volúpia de um desejo, no vazio de se estar só.

13.6.06

Eu vi um sapo

O sapo feio, o que passa as noites no pântano a coaxar, descobriu um dia que em seu redor, as princesas se tinham transformado em rãs. Se houvesse histórias de beijos que os transformassem em príncipes dos afectos e reis do amor, eu mesmo secaria os charcos, treparia às árvores e, em pássaro transformado, aprenderia a voar.

10.6.06

O horizonte lunar

Enfeitiçada lua em noite quente, ei-la a inundar ventres de loucuras, transtornando as mentes já despertas para a vida. Surgiu-me, assim, inesperada, como se o acaso negro de uma doença ou o presságio de um sentimento amável. Nunca mais da mesma janela eu te verei, ó lua, minha companhia desta noite. Silenciosos, os pássaros, aninhados na sua plumagem, nem ousam. Ao longe a cidade, agacha-se como se para dormir. Um resto de luz despede-se em azul. Enfeitiçada, louca e transtornada, a lua inicia a sua subida, rápida, na parábola infinita dos céus. Rezaria, sabendo, pelo bem de todos os que são bons. A silhueta da tristeza marca-me o horizonte do impossível.

Mulher em casa de homens


Envolto na luxúria do sonho, entre o inesperado de um sorriso breve, a meia-cara, o cálculo de um olhos convidativos, enevoado pela duvidosa mistela peganhenta que se colava, queimando-a, garganta abaixo, o homem sorria. No alarve do despropósito, mal se ouvia o indiferente pianista martelando teclas, símeo musical daquele local animalesco. As paredes escorriam um ambiente de farsa encenada e de amores de encomenda. Foi então que ela entrou, varrendo em círculo o soturno local, como se buscando a sua presa. Casa de carícias de aluguer, há nela sempre uma que mais seduz, fingindo-se a escolhida. Minutos depois, sentavam-se as duas, ela a estranha mulher em casa de homens, a outra a indiferente criatura apta para o que viesse. Foi então, no preciso momento em que tudo se explicaria, que o homem acordou, alagado no seu próprio suor, a ressacada de um noite de solitária bebedeira babada no lençol, um longínquo piano num rádio que ficara por desligar. Nesse domingo de manhã, o sol começava a raiar e com ele a dor profunda do não saber sequer o que fazer.

9.6.06

O lugar da indiferença

Lembro-me da sensação de frescura nas costas, a imiscuir-se pelo pano cru da camisa, como se a arrefecer-me os ímpetos ansiosos de ti. Lembro-me de os nosso pés nús afagarem o musgo que atapetava o chão daquela cratera que a Natureza nos dera, como o refúgio dos nossos sonhos. Lembro-me das palavras amáveis e das esperanças que nos demos, de mão dada, a um e a ao outro, a jura de que havia lá fora, para além da luz, um mundo que queríamos construir para nele viver. Hoje aqui estou, refugiado neste lugar afundado e de todos escondido, enregelado de tristeza, calçado de indiferença. Eu comecei a morrer na tua vida, só a luz me cega, cruel e acusadora. Tudo o mais é como se não existisse.

6.6.06

Agora que o dia cai

Não há seguramente, pelos muitos vexames que o dia nos trás, cena mais humilhante que um dia findar, de borco, na cama solitária que ficou por fazer desde a manhã. Acumule-se a loiça pela cozinha, que há um halo de festa que perpassa ainda por entre a desarrumação. Haja roupa por lavar e ainda um pouco por todo o lado, que um perfume de festa estouvada pode simular-se com esse vestígio do despir-se descuidado, uma peça por cada sala. Mas agora que o dia cai e uma noite morna começa lá fora e com ela uma cidade que surge das entranhas do seu bom viver, resta-me dormir profundamente e um ressonar primitivo a marcar audivelmente a animalidade de tudo isto. Não há vexame maior do que a humilhação de uma cama solitária.

5.6.06

A esplanada da vida

Escorria-lhe pelas costas um suor ácido de uma calor irritante, fechavam-se-lhe os olhos de cansaço. Já nem a dor formigueira dos braços fatigados sentia, as mãos cortadas da pega de uma pesadíssima mala. Chegara no comboio da tarde. Em frente a si, uma cidade morna olhava-o com estranheza. Um homem chegava, ao apeadeiro da vida, arquejando, ajoujado à carga do seu orgulho. Sentou-se, enfim, num recanto sombrio, protegendo-se da vergonha de ser visto neste transporte nómada de si. Ninguém sonha o que um homem sente, ninguém sabe o que um homem cala.

2.6.06

A ira dos céus

Ficou-me para sempre o ar severo, a contante insatisfação, o esgar reprovador. Cada gesto, um simples soerguer de sobrancelhas abatia-se sobre nós como se a ira dos céus nos fulminasse com relâmpagos. Lembro-me que ao domingo nos davam arroz doce. Lembro-me dos que, de castigo, ficavam a ver os outros comer. Alguns choravam por não terem uma mãe, outros já nem se importavam com isso. Lembro-me deste dia, de cada um de todos esses dias. A doença dos meus afectos nasceu aqui, como uma crise de crescimento.

29.5.06

QTA, anule a mensagem anterior

E de súbito, por entre o zumbido intermitente mil martelos ecoaram na minha cabeça. Eram quase quatro horas da manhã, a hora em que estar sozinho mais dói. Longe, quase imperceptível, um som evanescente e no entanto claro, familiar. Súbito desperto da hipnose nocturna do éter, três letras, três magníficas letras, pelas quais eu parecia ter esperado toda uma eternidade: QSL, QSL, o sinal para acusar a recepção de uma mensagem. Suspenso por um instante, sabendo-a ali, esperei até ao desespero da alvorada. Raiava o sol, o sinal perdera-se, uma tempestade magnética varria-me o espectro. Era impossível esperar mais. Passaram anos até saber quem era e como tinha morrido naquele instante.

27.5.06

O homem em azul

Sábado de manhã. O sol saíra já, furioso e mau, crestando tudo sob si, enlouquecendo os humanos, convocando raivosas moscas, animado por um coro matraqueante de ralos. Eu esperava num banco de pau de um miserável apeadeiro. Comigo uma mala, dentro dela, tudo o que me restava. Há na vida aqueles momentos em que um homem vive o momento único de ter de escolher o quê e sabe então, como se pela primeira vez, aquilo que é e o que quer. No meu caso, nómada irrequieto, tudo se resumia a uma mala a meu lado. Foi então que ele surgiu. Acordara, convicto, pela madrugada, como sempre e como de habitual, ainda à luz incerta daquelas horas primeiras, vestira, lento, a fardeta envelhecida de uma sarja a esboroar-se. Na mesa, na única mesa do único quarto da única casa que conhecia, a bandeira da autoridade ferroviária, o sinal de vida ao qual os maquinistas confiavam as suas vidas. Empunhou-a alquebrado. Ronceiro, apinhado de gente, aproximou-se pastoso o comboio que me tiraria dali. Um sentimento de dor esganou-me o coração como se, ao partir, cometesse o crime de não o levar.

26.5.06

A ave do paraíso


Aguilhoante sentimento de ausência, entre a ânsia de regaço e as bicadelas pecaminosas da falta. Ali estava, diante de mim, ao virar de uma esquina, no final de um longo trajecto, de sala em sala, galeria em galeria, secção após secção. Esquálidas virgens medievas, reprimidas monjas holandesas, debochadas flamengas de dentes cariados, tinha visto todas. A piedosa mãezinha, a sonhadora donzela, a maléfica rainha. Só que chegara, entretanto aqui. A portentosa natureza em seu esplendor frutífero, a ave rapace em seu apetite voraz, tudo ali me era dado, como se ao alcance de um gesto, à espera do atrevimento das mãos. Foi então que o porteiro nos fez sentir que eram cinco horas. Hora de fechar. Amanhã abrimos pelas dez. Uma boa noite para todos.

25.5.06

O velho Chevrolet

Lembro-me que tinha o tabelier distinto em madeira, os estofos cheirosos em pele e um porta-luvas imenso. Lembro-me dos cromados do pára-choques, os faróis rutilantes. Lembro-me do seu flamejante vermelho. Lembro-me que mal chegava à janela, de pequeno que era. Lembro-me como era feliz sem reparar que havia tantos que andavam a pé. Lembro-me sobretudo que nada disso me fazia falta ou tinha importância. Hoje esqueci tudo. Houve um tempo em que os automóveis tinham os pneus pretos com uma cercadura branca, os homens usavam sapato escuro com peitilho branco. Houve um tempo em que nada disso parecia ridículo e a humanidade tinha tempo para cuidar de si. Houve um tempo em que se fabricavam automóveis e não electrodomésticos com motor.

22.5.06

A mãe Natureza

Longe de tudo e a tudo indiferente, o sol ainda por chegar, a névoa a sombrear a paisagem, um homem pesca. Longe, a cidade dorme, num tumulto inquieto de responsabilidades, pesadelos de vidas desejadas e ansiosas, despertadores estridentes e inamistosos. Longe de tudo e a tudo indiferente um homem, este homem, confunde-se com a paisagem. Uma névoa piedosa sombreia-lhe o eu, diluindo-lhe o ser, recebendo-o no regaço maternal da Natureza. Longe, muito longe, a cidade desperta, sem conseguir acordar.

14.5.06

O indiferente Buda

Tem de facto um ar ridículo, e tudo aquilo é de facto incompreensível. De quem o deu, já ninguém se lembra, nem a que propósito. As mais velhas da família recordam-se todas de que aquilo já andava lá por casa quando elas brincavam com bonecas de trapo. Quantas tardes passei com a gramática francesa aberta a esmo, a olhar para aquilo só por não haver nada de melhor para se poder olhar, esgotado de verbos irregulares. Um dia talvez se quebre, o olhar atónito de porcelana, o lápis espetado, o indiferente Buda. Nesse dia, colar-se-ão os cacos, pela certa. Ao fim de tantos anos, já não conseguiríamos passar sem ele, o ar ridículo e incompreensível daquilo. Cada um de cada geração, reconhece-se ali, ninguém se lembra já a que propósito.

11.5.06

A multiplicação do eco

Barricara-se ali quando a fui buscar. Entre entulho e fermentações muitas de dejectos vários, um cheiro pestilento atroava-me os sentimentos. O próprio silêncio fazia eco, multiplicando-se entre si, nada mais havendo do que o vazio. Não havia canto de parede que não estivesse escrito, palavras empedernidas de raiva, rasgadas com as unhas a sangrarem-se contra o cimento. Estava só. Pressentindo ao que eu vinha, olhámo-nos longamente. As lágrimas escorriam-lhe pela face. Perguntei-lhe, como se a medo, se queria vir. Respondeu-me, como se envergonhada, o murmúrio de um sim. Saímos os dois. Nada havia ali que lhe valesse a pena trazer consigo. A casa ainda lá está. Outros a habitam: a família sucessiva dos desesperados, de quem nos esquecemos no dia a dia formigante das nossas vidas. Eu de insignificante gravata ao pescoço, a pastinha ridícula na mão.

6.5.06

Para o dia da mãe

Quantas vezes eram só duas linhas, o que podia caber num simples postal. Se houvesse tempo para se pensar ia em cada letra um pensamento, em cada palavra um sentimento, em cada parágrafo um anseio. Assim era só a presença e a recordação. No «nós por cada todos bem» e no «espero que ao receber esta» estava, afinal, já tudo dito. O mais, eram as coisas ridiculamente carinhosas como o «olha lá, meu filho, não apanhes frio» ou «o pai não se esqueça de tomar seus os remédios». Amanhã, ao virar a folha de um álbum, um coração de mãe, a memória gasta pelo tempo, a sensibilidade ensarilhada pela velhice, dirá à vizinha do lado, pela milésima vez: «era este, um bonito rapaz. Escrevia-nos cartas tão lindas. Acho que ainda as tenho ali». No mais, é um mundo que já morreu.

3.5.06

Um deus por haver

A nossa vingança, depois do que sofremos ali, foi ter chegado um dia, sem aviso, e encontrar pela frente estes escombros do que foi para muitos uma prisão, a ruína do que para tantos foi um hospital, a degradação do que para todos foi o não termos outra vida para viver. Ao domingo alguns tinham enfastiadas visitas, outros trancavam-se por dentro, fingindo não as querer. De quando em vez um sumia-se. Imaginávamos ter morrido, para ficarmos contentes com a sua ausência. Uns dias depois mudava-se de assunto. Como isto nos entristece já sem tristeza. Quantos cravámos raivosas as unhas despedaçando-as contra aquelas paredes que hoje, ridículas, mal se têem de pé. Eu sei que não há Deus, pois a haver, teria vivido aqui, nesta miséria de ter sido nosso irmão. A haver, um dia encontrávamo-lo enforcado. Ao terceiro dia estaria enterrado com uma ladainha barata e umas pazadas de cal. Haja pena, por isso, pelos que não voltaram.

1.5.06

A invenção da memória

Mal se adivinha hoje, mas eu passava por ali aos domingos pela manhã. Eram tempos em que não havia lugar para onde ir, pessoas novas para conhecer, acontecimentos a que pudessemos chamar novos. Ao chegar perto, os passos a aproximarem-se, retinha a marcha, sôfrego de que alguém aparecesse. Aconteceu uma vez só, um vulto a fechar a janela que hoje apodreceu na realidade do que se vê. Se eu tivesse algum dia subido, teria tentado saber como se inventa o amor. Assim, ficou apenas esta grosseira memória, carcomida e enxovalhante.

30.4.06

Um céu em azul

Vinha eu de passeio por aqui e surgiu-me de súbito a ideia de aqui viver. Entre árvores e outros verdes. Com a hera a trepar-me pelas pernas, os pássaros a cantarem-me na cabeça. Abrindo de par em par a janela da alma e vendo, enfim, um céu em azul.

29.4.06

Acordar cedo

Escreve, emenda, rasura e rasga. Sente e não diz. Quando pensa, não fala. Quando devia, não escreve, quando o lêm, é já tarde demais. Há nesta casa fragmentos de tanta gente que sofreu em literatura, riu-se em cores e odiou, com as próprias mãos esculpindo a cena gloriosa do seu ódio. Estive aqui, atento de tão míope, a decifrar a frase «quem adormece, com a ideia do acordar cedo, pode dormir descansado». Era o Teixeira de Pascoaes. Deixai-o dormir, o sono profundo em que sonha, brumoso entre saudades, um mundo que já não há.

24.4.06

A irrequietude do olhar

Predador e rapinante, senhor dos céus, traja-se de um estranho hábito, talar e mortuário. Ao entardecer, recolhe, sempre em bando, a árvores fronteiras a locais onde vida serenada, adormece. É o símbolo desta cidade, companheiro de marinheiros que já não há, amuleto de fiéis defuntos. Olhando-o, porém, na irrequietude do seu olhar, percebe-se o que é o inatingível, o momento íntimo da arreigada solidão, o inescapável do ser.

23.4.06

Um assunto já visto

Eram cinco da manhã de um dia de chuva, que o frio enregelava. As portas só abririam às nove. Quatro horas depois, descobri que era domingo. Tinha de voltar depois, muito mais tarde, pois segunda-feira era dia feriado. Voltei na terça, de novo às cinco. Pelas nove soube que tinham mudado de sede. Ao fim da tarde, esgotado de esperar, com as portas quase a fechar, informaram-me, então, que o visto era desnecessário, tinha sido abolido na semana anterior. Podia afinal seguir viagem, sem quaisquer dificuldades, não fosse o internamento num hospital, a curar uma pneumonia.

19.4.06

Um número num catálogo

Ainda hoje me impressiona quando olho para eles, como se não quisesse que eles me vissem. No seu olhar baço eu vejo a sombra de uma vida queimada. São fabricantes de fósforos. Por um segundo de luz, viveram uma eternidade nas trevas. Hoje a sua miséria, a sua infelicidade, não chega a ser uma acusação nem um ressentimento, tão pouco um remorso. É, para nós todos, uma completa indiferença. A sua fotografia, ridícula de má imagem, aguarda o funeral da catalogação, para que se suma de vez, incomodativa que é, no coval do tranquilizador esquecimento.

16.4.06

O lugar e a tarde

É ao fim da tarde que num lugar destes já não se aguenta de tanto estar só. Começa por não se sair à rua, por se não ter onde ir, depois ferramo-nos a nós, por não termos com quem estar. Uma manhã dão com um corpo sufocado, de tanto a si próprio se agarrar. É ao fim da tarde que eu escrevo isto, neste lugar, dentro de mim.

15.4.06

Uma partida de cartas

Soprava um vento morno e empoeirado vindo das areias do deserto. A hora do jantar aproximava-se e com ela um odor adocicado vindo das cozinhas. A meu lado uma velha inglesa e um ainda mais velho médico alemão, jogavam uma interminável partida de cartas. Vogando a meia força, tínhamos o Cairo como horizonte. Bocejando de fome, entretinha-me com tudo e com nada. O voar errático de uma mosca, no fumarento «deck», duas ou três linhas de um jornal francês, qualquer coisa que me ocupasse o espírito. Creio que foi então que rabisquei este postal para casa. Enderecei-o a mim próprio. Quando chegasse tinha alguém que me escrevera, a alegria de qualquer viajante sozinho.Encontrei-o hoje.

14.4.06

Gloria!

Lembro que o carro ficava debaixo de uma árvore, para que o encontrássemos fresco, ao regressar. O mais, são só memórias de sofrimento: os sapatos de verniz mordiam-me os pés, o colarinho apertava-me o pescoço; estava-se de pé parte do tempo, de joelhos horas a fio. As ladaínhas, incompreensáveis, diziam-se, rangendo-as, em latim. Ficou-me por isso, como um tormento, apenas a ideia de um Cristo eternamente pregado na cruz, o Pai indiferente, a Virgem Mãe rojando-se a seus pés. Ao domingo os velhos ficavam contentes e eu comia amêndoas. Ao arrumar os sapatos, vendo-lhe no verniz estalado o sulco quebrado do seu uso, sentia que a vida era imperfeição. Quanto ao Cristo, acho que continuava, esquecido, pregado na cruz, secula seculorum.

12.4.06

A individualidade do eu

Caminha-se pela areia e no recato daquele lugar solitário deixamos que a Natureza nos invada trazida pela brisa fresca da manhã, levada pelo ir-se da noite. Habituados à escuridão os olhos preenchem-se com o nascer rápido do sol. Atrás, no começo do caminho que se fez, a azáfama dos pequenos almoços, chega-nos em sons abafados, vinda de um hotel que se anima para mais um dia. Entre os que dormem, um ou outro sonha. É tudo a ilusão de um momento, a minha com a diferença de ter exterior. Daqui a uma horas partimos para as entranhas do nós, para a indiferença ao que nos rodeia. O sol a pique retira-nos a própria sombra. Reduzidos à nossa individualidade, estaremos então mais sós.

9.4.06

Plaza Colón

Alguém, em tempos idos, viu, viveu e sentiu isto. Hoje é um postal amarrotado, vendido ao lado de outro lixo, no rodapé da vida, no desinteressante dos interesses. Alguém, num mundo já morto, amou sofregamente aqui e aqui se corroeu de rancores. Hoje é um pedaço de papel ressequido. Olho-o, neste domingo cinzento, indiferente, sem cuidar de saber onde é ou onde foi. É uma das muitas Plazas Colón, com acento no segundo «ó», já que mo perguntam.

8.4.06

Saber dizer

Dizem-me que está lá fora um dia lindo de sol. Dizem-me que há crianças que estão na rua para o seu primeiro passeio, velhos que saem à rua sem saberem que é pela última vez. Dizem-me que, ao espelho da fantasia, há mulheres sós que se maquilham para ninguém, homens, na rua da amargura, que fumam solitários cigarros, em cafés esvaziados e sem razão. Dizem-me, enfim, que há sempre uma janela aberta na esperança de cada primavera. Dizem-me que logo vem a noite. Dizem-me que eu já não deveria estar aqui.

7.4.06

A decadência das convicções

Não sei que dura religiosidade, acre misticismo, adocicado paganismo recolhi aqui, neste momento ortodoxo de uma festa que sempre e deixou indiferente. Cresci a celebrar o Natal e as prendas, a desconsiderar a Páscoa e o seu folar. Depois, era o receio das amêndoas e dos dentes podres. Hoje, na decadência das convicções, tudo sentido de entre o que havia para sentir, idos mesmo os próprios dentes, secas as esperanças na salvação, é apenas uma fotografia. Vejo-os, fiéis e convictos virando-me as costas, como merece a minha danação.


4.4.06

Vida de lagarta

É o museu da seda, em Soufli. Chega-se aqui fazendo caminho pela linha do caminho de ferro. Pé ante pé por sobre as chulipas, ao fim de umas horas as pernas tremem, descontroladas, de cansaço. Só a macieza do lugar a adoçar-nos os sentidos, o odor das amoreiras a acariciar-nos as narinas, a beleza dos corpos engalanados a acicatar-nos a imaginação compensam o esforço. Há quem faça a viagem pela estrada, mas não ao mesmo lugar.

2.4.06

A lamúria contida

A esta hora, indiferentes a outras obrigações se não de a jantar o que calhar e dormir quando vier sono, há seres humanos para quem o único horizonte é o azul dos céus, o único enigma o aparente sem fim dos rios. Trancado no que chamamos de vida civilizada, hoje domingo, nem nisso penso nem no que aqui escrevo, para que não pareça que me lamento com isso e se irritem mais comigo e com estes dissolventes carpidos.

1.4.06

A mala posta

Quebradiça loiça, exposta ao sol, absorvia refractária o calor solar daquela manhã de Verão. Estávamos tão longe de tudo que uma simples estação de correios eram trinta quilómetros a pé. Naquele dia eu decidira-me a telefonar. Esperava paciente a minha vez, a central manual a aguardar acesso à rede. De súbito, quando menos esperava, consegui-se ligação. Era ainda no tempo dos infinitos repetidores, a voz reflectida de «relais» em «relais», o tiquetactear de mecânicas engenhocas. «Um momento, disse-me a familiar operadora, Lisboa está em linha». Segurei nervoso o auricular. A meu lado um velho gritava ao bocal, como se para um interlocutor inexistente, do qual nem o eco lhe chegava. A chamada, entretanto, caíu. Tentamos amanhã, ou mando um postal. Afinal, daqui a doze dias estará aí.

30.3.06

Uma lembrança, se faz favor


Houve já aqui um tempo de suspiros e águas correntes, amores venais e ilusões de ternura paga. Houve já aqui paixões de aluguer, carícias encomendadas, suspiros exagerados. Tudo aqui se simulou e nada parecia proibido. Houve já aqui um tempo em que homens e mulheres se entregaram uns aos outros em cadeias de união carnal, num deboche demencial, que nenhuma lei parecia impedir. É um dos lupanares de Pompeia, o bordel que a lava conservou. Passo aqui indiferente à ladainha do guia turístico, neste fim de tarde, perto da hora do jantar. Lá dentro nada há e ninguém ficou. Estão todos mortos, e não há sequer testemunhas para o recordar. A luxúria, a agonia do prazer infindo, os sentidos exaustos e o corpo insaciável, hoje é isto, este momento petrificado, imóvel, estático, simbolicamente vazio, um ponto de passagem num passeio, o hotel à vista, meus senhores obrigado pela visita, é só o que a vossa generosidade me quiser dar.

29.3.06

O saciar da carne

Há, no imediato horizonte além do qual tudo me é desconhecido, a presença brumosa da ruína, a incerteza da subsistência, a dúvida sobre a própria permanência. Há no lugar distante que a vista alcança, o saciar carnal das saudades de terra. Aproximámo-nos então, recolhendo cautelosamente o pano. Ao ver o meu reflexo na água, vi na agonia daquele espelho, uma imagem de estranheza, como se exilado de mim, vivesse em terra estrangeira. Puxados a remos, acostámos exaustos.Um cenário de terror aguardava-nos então. Nada sobrevivia naquele inferno; corpos estropiados, semeados a esmo, marcavam, num rio de sangue e de vísceras estraçalhadas, a passagem do homem por ali.

26.3.06

Domingo de manhã


Houve um tempo em que, por ser domingo, eu sonhava com a tarde no cinema, em que, sendo domingo, o almoço era melhorado, em que, apesar de ser domingo, não íamos à missa nem ao futebol. Houve um tempo em que, ao ser domingo era um dia diferente, festivo, familiar.Houve um tempo que aos domingos eu estava contente. Hoje, sentado aqui com os papéis amarrotados desta escrita, devorado pelo trabalho que me espera e diminuído pela culpa de o recusar, já que é domingo, nem sei o que sinta, o que faça ou o que diga. Amanhã é segunda feira. Tudo passa, até o tempo em que havia domingos.

24.3.06

Os passos erráticos

Não sei se sou o criador do que me surge: às vezes é só uma luz irradiante, uma nesga de céu, o horizonte possível para além de uma curva em estrada desconhecida.Não sei se não sou, eu próprio, o que me surge. Espero-me, pois, aguardando-me, diluído na bruma, indiferente ao norte perdido, aos passos erráticos do que me chega.

23.3.06

O medo das formigas

Lembro-me que era miúdo e que íamos para ali de farnel. Hoje, na confusa memória e na má fotografia não dá para se perceber, mas está lá tudo: as migalhas do folar, o termos do café, o medo que eu tinha das formigas, a gorda Angelina a arfar de cestos, o meu tio Saúl a dormitar ao sol. No mais morreu tudo. O lugar é uma urbanização de casas indiferenciadas para gente anónima e eu próprio já nem saberia ir lá.

20.3.06

Irreconhecível criatura

Depois de tentar, nos últimos dias, por todos os meios e mais alguns colocar aqui fotografias, sem as quais este blog não tem sentido nem vida, e após recusas e falhanços, esperanças e desilusões, estava hoje disposto a não começar o meu dia sem vir aqui dizer ao menos esse «não consigo!». Os deuses tiveram pena! Pronto, sou eu: há cinquenta e um anos atrás, como se nota, feliz sem saber o mundo sem sentido e sem vida que me esperava. Carneiro que sou, astrologicamente pelo menos, estou quase a comemorar o facto, dando conta que não sucedeu, que ainda é a melhor forma de se celebrar uma tal coisa.

16.3.06

A falésia

Tínhamos chegado nesse Verão talvez mais cedo do que em todos as outras vezes antecedentes, ou então terá sido num daqueles fins de semana que terminam no pesadelo do domingo à noite, a agressividade do regresso, o insuportável do arrumar sacos, malas para carregar, o não haver jantar que apeteça, as crianças chorosas de sono, os pais desiludidos do esforço, o amanhã ser segunda-feira. Lembro-me do exacto momento, o do reencontro com a brisa marítima, o acre marítimo daquele lugar. Era o tempo da melancolia sem motivo, das férias por obrigação, da família como atrelado. Voltei hoje aqui, fotograficamente apenas, tolhido de desejo, esquecido da saudade.

11.3.06

À mercê do capim

Era eu, branco, e o Jéjé, mulato, filho do funileiro Lucas. O Lucas deve ter morrido, o Jéjé nem sei se vive, eu ando por aí. Um dia andava eu miúdo e uma miúda como eu, brincando no meio do capim. Eu era tão miúdo que me metia com uma miúda no meio do capim, para brincarmos aos jantarinhos para as bonecas. Jantarinho foi esse que aquilo largou a arder. Era eu, branco, o Jéjé, mulato, pretos de fuligem, a tentar apagar capim a arder. A Luizinha fugiu para casa com medo de apanhar. Estamos todos, uns velhos e outros mortos, um destes dias à mercê de sermos engolidos pelo crescer o capim. Talvez sobejem as bonecas da Luizinha. Hoje já ninguém brinca aos jantarinhos, hoje ninguém pega fogo ao capim.

8.3.06

Altos voos

Compreendam a única coisa que me irritou quando morei aqui, naquela noite em que vim às escuras ao quintal: o tempo que me levou o voltar para casa, depois de seis meses no hospital e uma semana a subi-la, a escada do regresso.

A carreta das almas

Besta de carga e animal de tiro, à força de braços e de dentes rilhados, rangendo a ossada e babando-se do esforço, ei-lo, excrecência de humano atrelado à funerária carreta do seu ganha-pão. Chovia copiosamente e da janela larga do esplêndido hotel, rimo-nos todos, turistas de ocasião, imenso e a bom rir. Eu tirei esta fotografia. Na aparência, ele seguiu o seu destino de fome, na realidade persegue-me de cada vez que o olho e me revejo, a alarvice de mim na indiferença por ele.

3.3.06

De pé, ó vítimas da fome!

A meu lado duas anafadas matronas soltavam gritinhos nervosos, entreolhando-se carregadas de rubores e sub-entendidos. Tímidas, refugiando-se nos refolhos do seu recato, um par de pálidas gémeas bexigosas, faziam com a amplitude da mão o gesto obsceno de lhe medir o tamanho, e adivinhar a potência. Foi na excursão à Capadócia. Não que eu lá tenha estado, mas só porque poderia ter acontecido.

1.3.06

O ciclo vital

Seja o cheiro fétido a lenha podre, a urina ressequida de um gado que se aninha, encurralado nos confins húmidos deste casebre, aquecendo-se ao próprio bafo. Seja a memória de uma infância a pé descalço, alimentado a casqueiro duro e a uma malga de caldo em que boiava uma, com sorte duas, rodelas de um chouriço bedunguento. Seja a miséria do local e a fealdade da recordação. Seja esse o chiqueiro a que chamo as minhas origens. Na porta aberta, na lenha empinada a um canto, no bolor e tudo o que dele exala, eu sinto o húmus de onde saímos, a putrefacção em que nos tornaremos.