24.4.06
A irrequietude do olhar
23.4.06
Um assunto já visto
Eram cinco da manhã de um dia de chuva, que o frio enregelava. As portas só abririam às nove. Quatro horas depois, descobri que era domingo. Tinha de voltar depois, muito mais tarde, pois segunda-feira era dia feriado. Voltei na terça, de novo às cinco. Pelas nove soube que tinham mudado de sede. Ao fim da tarde, esgotado de esperar, com as portas quase a fechar, informaram-me, então, que o visto era desnecessário, tinha sido abolido na semana anterior. Podia afinal seguir viagem, sem quaisquer dificuldades, não fosse o internamento num hospital, a curar uma pneumonia. 19.4.06
Um número num catálogo
Ainda hoje me impressiona quando olho para eles, como se não quisesse que eles me vissem. No seu olhar baço eu vejo a sombra de uma vida queimada. São fabricantes de fósforos. Por um segundo de luz, viveram uma eternidade nas trevas. Hoje a sua miséria, a sua infelicidade, não chega a ser uma acusação nem um ressentimento, tão pouco um remorso. É, para nós todos, uma completa indiferença. A sua fotografia, ridícula de má imagem, aguarda o funeral da catalogação, para que se suma de vez, incomodativa que é, no coval do tranquilizador esquecimento. 16.4.06
O lugar e a tarde
É ao fim da tarde que num lugar destes já não se aguenta de tanto estar só. Começa por não se sair à rua, por se não ter onde ir, depois ferramo-nos a nós, por não termos com quem estar. Uma manhã dão com um corpo sufocado, de tanto a si próprio se agarrar. É ao fim da tarde que eu escrevo isto, neste lugar, dentro de mim.15.4.06
Uma partida de cartas
Soprava um vento morno e empoeirado vindo das areias do deserto. A hora do jantar aproximava-se e com ela um odor adocicado vindo das cozinhas. A meu lado uma velha inglesa e um ainda mais velho médico alemão, jogavam uma interminável partida de cartas. Vogando a meia força, tínhamos o Cairo como horizonte. Bocejando de fome, entretinha-me com tudo e com nada. O voar errático de uma mosca, no fumarento «deck», duas ou três linhas de um jornal francês, qualquer coisa que me ocupasse o espírito. Creio que foi então que rabisquei este postal para casa. Enderecei-o a mim próprio. Quando chegasse tinha alguém que me escrevera, a alegria de qualquer viajante sozinho.Encontrei-o hoje.
14.4.06
Gloria!
Lembro que o carro ficava debaixo de uma árvore, para que o encontrássemos fresco, ao regressar. O mais, são só memórias de sofrimento: os sapatos de verniz mordiam-me os pés, o colarinho apertava-me o pescoço; estava-se de pé parte do tempo, de joelhos horas a fio. As ladaínhas, incompreensáveis, diziam-se, rangendo-as, em latim. Ficou-me por isso, como um tormento, apenas a ideia de um Cristo eternamente pregado na cruz, o Pai indiferente, a Virgem Mãe rojando-se a seus pés. Ao domingo os velhos ficavam contentes e eu comia amêndoas. Ao arrumar os sapatos, vendo-lhe no verniz estalado o sulco quebrado do seu uso, sentia que a vida era imperfeição. Quanto ao Cristo, acho que continuava, esquecido, pregado na cruz, secula seculorum.12.4.06
A individualidade do eu
Caminha-se pela areia e no recato daquele lugar solitário deixamos que a Natureza nos invada trazida pela brisa fresca da manhã, levada pelo ir-se da noite. Habituados à escuridão os olhos preenchem-se com o nascer rápido do sol. Atrás, no começo do caminho que se fez, a azáfama dos pequenos almoços, chega-nos em sons abafados, vinda de um hotel que se anima para mais um dia. Entre os que dormem, um ou outro sonha. É tudo a ilusão de um momento, a minha com a diferença de ter exterior. Daqui a uma horas partimos para as entranhas do nós, para a indiferença ao que nos rodeia. O sol a pique retira-nos a própria sombra. Reduzidos à nossa individualidade, estaremos então mais sós.9.4.06
Plaza Colón
Alguém, em tempos idos, viu, viveu e sentiu isto. Hoje é um postal amarrotado, vendido ao lado de outro lixo, no rodapé da vida, no desinteressante dos interesses. Alguém, num mundo já morto, amou sofregamente aqui e aqui se corroeu de rancores. Hoje é um pedaço de papel ressequido. Olho-o, neste domingo cinzento, indiferente, sem cuidar de saber onde é ou onde foi. É uma das muitas Plazas Colón, com acento no segundo «ó», já que mo perguntam.8.4.06
Saber dizer
Dizem-me que está lá fora um dia lindo de sol. Dizem-me que há crianças que estão na rua para o seu primeiro passeio, velhos que saem à rua sem saberem que é pela última vez. Dizem-me que, ao espelho da fantasia, há mulheres sós que se maquilham para ninguém, homens, na rua da amargura, que fumam solitários cigarros, em cafés esvaziados e sem razão. Dizem-me, enfim, que há sempre uma janela aberta na esperança de cada primavera. Dizem-me que logo vem a noite. Dizem-me que eu já não deveria estar aqui.7.4.06
A decadência das convicções
Não sei que dura religiosidade, acre misticismo, adocicado paganismo recolhi aqui, neste momento ortodoxo de uma festa que sempre e deixou indiferente. Cresci a celebrar o Natal e as prendas, a desconsiderar a Páscoa e o seu folar. Depois, era o receio das amêndoas e dos dentes podres. Hoje, na decadência das convicções, tudo sentido de entre o que havia para sentir, idos mesmo os próprios dentes, secas as esperanças na salvação, é apenas uma fotografia. Vejo-os, fiéis e convictos virando-me as costas, como merece a minha danação.4.4.06
Vida de lagarta
É o museu da seda, em Soufli. Chega-se aqui fazendo caminho pela linha do caminho de ferro. Pé ante pé por sobre as chulipas, ao fim de umas horas as pernas tremem, descontroladas, de cansaço. Só a macieza do lugar a adoçar-nos os sentidos, o odor das amoreiras a acariciar-nos as narinas, a beleza dos corpos engalanados a acicatar-nos a imaginação compensam o esforço. Há quem faça a viagem pela estrada, mas não ao mesmo lugar. 2.4.06
A lamúria contida
A esta hora, indiferentes a outras obrigações se não de a jantar o que calhar e dormir quando vier sono, há seres humanos para quem o único horizonte é o azul dos céus, o único enigma o aparente sem fim dos rios. Trancado no que chamamos de vida civilizada, hoje domingo, nem nisso penso nem no que aqui escrevo, para que não pareça que me lamento com isso e se irritem mais comigo e com estes dissolventes carpidos.1.4.06
A mala posta
Quebradiça loiça, exposta ao sol, absorvia refractária o calor solar daquela manhã de Verão. Estávamos tão longe de tudo que uma simples estação de correios eram trinta quilómetros a pé. Naquele dia eu decidira-me a telefonar. Esperava paciente a minha vez, a central manual a aguardar acesso à rede. De súbito, quando menos esperava, consegui-se ligação. Era ainda no tempo dos infinitos repetidores, a voz reflectida de «relais» em «relais», o tiquetactear de mecânicas engenhocas. «Um momento, disse-me a familiar operadora, Lisboa está em linha». Segurei nervoso o auricular. A meu lado um velho gritava ao bocal, como se para um interlocutor inexistente, do qual nem o eco lhe chegava. A chamada, entretanto, caíu. Tentamos amanhã, ou mando um postal. Afinal, daqui a doze dias estará aí.
30.3.06
Uma lembrança, se faz favor

Houve já aqui um tempo de suspiros e águas correntes, amores venais e ilusões de ternura paga. Houve já aqui paixões de aluguer, carícias encomendadas, suspiros exagerados. Tudo aqui se simulou e nada parecia proibido. Houve já aqui um tempo em que homens e mulheres se entregaram uns aos outros em cadeias de união carnal, num deboche demencial, que nenhuma lei parecia impedir. É um dos lupanares de Pompeia, o bordel que a lava conservou. Passo aqui indiferente à ladainha do guia turístico, neste fim de tarde, perto da hora do jantar. Lá dentro nada há e ninguém ficou. Estão todos mortos, e não há sequer testemunhas para o recordar. A luxúria, a agonia do prazer infindo, os sentidos exaustos e o corpo insaciável, hoje é isto, este momento petrificado, imóvel, estático, simbolicamente vazio, um ponto de passagem num passeio, o hotel à vista, meus senhores obrigado pela visita, é só o que a vossa generosidade me quiser dar.
29.3.06
O saciar da carne
Há, no imediato horizonte além do qual tudo me é desconhecido, a presença brumosa da ruína, a incerteza da subsistência, a dúvida sobre a própria permanência. Há no lugar distante que a vista alcança, o saciar carnal das saudades de terra. Aproximámo-nos então, recolhendo cautelosamente o pano. Ao ver o meu reflexo na água, vi na agonia daquele espelho, uma imagem de estranheza, como se exilado de mim, vivesse em terra estrangeira. Puxados a remos, acostámos exaustos.Um cenário de terror aguardava-nos então. Nada sobrevivia naquele inferno; corpos estropiados, semeados a esmo, marcavam, num rio de sangue e de vísceras estraçalhadas, a passagem do homem por ali.26.3.06
Domingo de manhã

24.3.06
Os passos erráticos
Não sei se sou o criador do que me surge: às vezes é só uma luz irradiante, uma nesga de céu, o horizonte possível para além de uma curva em estrada desconhecida.Não sei se não sou, eu próprio, o que me surge. Espero-me, pois, aguardando-me, diluído na bruma, indiferente ao norte perdido, aos passos erráticos do que me chega.23.3.06
O medo das formigas
Lembro-me que era miúdo e que íamos para ali de farnel. Hoje, na confusa memória e na má fotografia não dá para se perceber, mas está lá tudo: as migalhas do folar, o termos do café, o medo que eu tinha das formigas, a gorda Angelina a arfar de cestos, o meu tio Saúl a dormitar ao sol. No mais morreu tudo. O lugar é uma urbanização de casas indiferenciadas para gente anónima e eu próprio já nem saberia ir lá.20.3.06
Irreconhecível criatura
Depois de tentar, nos últimos dias, por todos os meios e mais alguns colocar aqui fotografias, sem as quais este blog não tem sentido nem vida, e após recusas e falhanços, esperanças e desilusões, estava hoje disposto a não começar o meu dia sem vir aqui dizer ao menos esse «não consigo!». Os deuses tiveram pena! Pronto, sou eu: há cinquenta e um anos atrás, como se nota, feliz sem saber o mundo sem sentido e sem vida que me esperava. Carneiro que sou, astrologicamente pelo menos, estou quase a comemorar o facto, dando conta que não sucedeu, que ainda é a melhor forma de se celebrar uma tal coisa.16.3.06
A falésia
Tínhamos chegado nesse Verão talvez mais cedo do que em todos as outras vezes antecedentes, ou então terá sido num daqueles fins de semana que terminam no pesadelo do domingo à noite, a agressividade do regresso, o insuportável do arrumar sacos, malas para carregar, o não haver jantar que apeteça, as crianças chorosas de sono, os pais desiludidos do esforço, o amanhã ser segunda-feira. Lembro-me do exacto momento, o do reencontro com a brisa marítima, o acre marítimo daquele lugar. Era o tempo da melancolia sem motivo, das férias por obrigação, da família como atrelado. Voltei hoje aqui, fotograficamente apenas, tolhido de desejo, esquecido da saudade.11.3.06
À mercê do capim
Era eu, branco, e o Jéjé, mulato, filho do funileiro Lucas. O Lucas deve ter morrido, o Jéjé nem sei se vive, eu ando por aí. Um dia andava eu miúdo e uma miúda como eu, brincando no meio do capim. Eu era tão miúdo que me metia com uma miúda no meio do capim, para brincarmos aos jantarinhos para as bonecas. Jantarinho foi esse que aquilo largou a arder. Era eu, branco, o Jéjé, mulato, pretos de fuligem, a tentar apagar capim a arder. A Luizinha fugiu para casa com medo de apanhar. Estamos todos, uns velhos e outros mortos, um destes dias à mercê de sermos engolidos pelo crescer o capim. Talvez sobejem as bonecas da Luizinha. Hoje já ninguém brinca aos jantarinhos, hoje ninguém pega fogo ao capim.8.3.06
A carreta das almas
Besta de carga e animal de tiro, à força de braços e de dentes rilhados, rangendo a ossada e babando-se do esforço, ei-lo, excrecência de humano atrelado à funerária carreta do seu ganha-pão. Chovia copiosamente e da janela larga do esplêndido hotel, rimo-nos todos, turistas de ocasião, imenso e a bom rir. Eu tirei esta fotografia. Na aparência, ele seguiu o seu destino de fome, na realidade persegue-me de cada vez que o olho e me revejo, a alarvice de mim na indiferença por ele.3.3.06
De pé, ó vítimas da fome!
1.3.06
O ciclo vital
Seja o cheiro fétido a lenha podre, a urina ressequida de um gado que se aninha, encurralado nos confins húmidos deste casebre, aquecendo-se ao próprio bafo. Seja a memória de uma infância a pé descalço, alimentado a casqueiro duro e a uma malga de caldo em que boiava uma, com sorte duas, rodelas de um chouriço bedunguento. Seja a miséria do local e a fealdade da recordação. Seja esse o chiqueiro a que chamo as minhas origens. Na porta aberta, na lenha empinada a um canto, no bolor e tudo o que dele exala, eu sinto o húmus de onde saímos, a putrefacção em que nos tornaremos.28.2.06
Esgravatando com as unhas
Admito que esteja em escombros, concordo que está em ruínas, mas é à mesma uma prisão. Poder ser apenas um sonho mau, um péssimo momento, o fastio de um dia sem sair da grilheta das obrigações, do encarceramento dos deveres. Mas nesta vida celular, de rotina confinada, a mesma vontade de cavar um túnel, comum a todos os prisioneiros. Mesmo que não leve a qualquer saída, ocupa o espírito com a ideia da libertação.27.2.06
O azul ou o branco
Teria sido num tempo em que as tardes eram suficientemente extensas para que se pudesse dormir, tranquila, a sesta, as noites tão grandes que era possível, sem esforço, ficar a ler. Teria sido num tempo em que numa daquelas janelas eu vi o alvorecer de uma ideia e p0r causa dela decidi não regressar. Dias depois zarparia o último navio e no vazio do porto eu compreenderia, enfim, o mundo que me restava. Teria sido num tempo em que se poderia optar por uma viagem ou por uma permanência. Hoje, olhando-à à fotografia da casa, de cuja janela tudo me sucedeu, hesito se é o azul ou o branco o automóvel que lá deixei. Não sei em nome de que ideia, por causa de que ilusão, ou a caminho de que erro, mas parti, do mesmo porto, num outro navio, a caminho do mundo em falta, a parte restante de mim.23.2.06
E depois do adeus
Trancado, noite após noite, nos esconsos de um escritório, imagino que em redor exista o azul dos céus e o verde dos mares. Visto o mundo porém, desta nesga obtusa de janela, pelo intervalo esboroado das persianas, resta-me uma pálida estrela cintilante, tão longínqua e empalidecida que se diria poeira esquecida no firmamento. A esta hora, no silêncio morno dos desertos e na atroar galcial das cidades haverá por certo alguém para quem a vida, na sua pacatez, equivalerá ao mar da tranquilidade. Acenar-lhes-ia se os visse, se os sentisse ou se na sua longínqua diferença neles me reconhecesse. Volto porém para dentro, negando-me essa familiaridade. A esta hora absurda, vista a janela, o obtuso do intervalo e a palidez da poeira, reentro em mim e comigo adormeço.8.2.06
A esquina da memória
É só mesmo porque, ao dobrar a esquina, nos cruzamos com a memória. Depois vem o quotidiano e soterra-nos com os pormenores do que fica. Podem por isso demolir o prédio, varrer a esquina, pode mesmo acabar o cinema e eu ter sido um dos últimos a passar por ali. No dia em que acabar a Europa, terá ficado, deste cinema, a esquina e o jardim ali tão perto, o da Parada.4.2.06
O desespero em estremocense

Não, eu não queria estar aqui num hotel trancado, confinado a um quarto, amarrado a ter de trabalhar. Não, eu não queria que fosse isto, por ser um fim de semana. Eu queria, que fosse todos os dias e assim acontecesse pela beleza do que se vê, pela paz que se sente, pelo desejo que se tem. Eu sei que é Estremoz, eu sei que hoje é sábado, eu sei que já não posso dormir mais, eu sei que não quero ir.
1.2.06
Uma folha

Hoje é apenas uma folha amaralecida num álbum desarrumado num sótão. Mas houve um momento em que, por um instante, estes homens suspenderam a sua vida para um instantâneo, como se a eternidade os recolhesse. Hoje estarão todos mortos, e ninguém chorará já convictamente a sua perda. Não sei se algum deles foi o que trouxe a fotografia, ou se ela veio no lote das que se vendem por aí, ao molho, pelas feiras de antiqualhas. Está escrito a lápis que tudo isto foi em Nankin, não sei como, nem com quem, nem sequer porquê.
28.1.06
O dia da visita
Talvez por ser sábado de manhã, hoje quando passei, não havia ninguém na rua. E, no entanto, o prédio ali estava. Por detrás da sua majestade caduca, ainda restavam centenas deles, aqueles que a família não queria ou já nem família teriam. Os vidros partidos, o reboco esboroado, no interior um frio tão glacial como o que lhes vai na alma. Amanhã, por ser domingo, talvez venha o sol e uma ou outra visita apareça com um farnel e umas revistas, para os entreter por uns momentos. Vão-se depressa, as crianças fartas de velhos, os adultos com medo de o serem. Hoje, depois de eu ter passado, e porque é sábado, não ficou ali mais ninguém. 26.1.06
A mala por fazer
Às vezes é só o desejo ferroviário de partir. O colocar a mala na rede por cima do assento. Esperar que ninguém nos acompanhe na carruagem. Abrir o jornal e adormecer, na ronronante viagem. Num qualquer apeadeiro, perdidas já as saudades de tudo, e ainda sem saber para que destino, mirar todos e cada um dos que entram a bordo, como se houvesse neles uma razão que a nós nos falta. Às vezes é só ficar eternamente no cais, a mala por fazer. um itinerário pelos carris do sonho pelas estações da ilusão.24.1.06
O sobejo da velha mala

Muitas vezes é como um favo numa colmeia, onde se acotovelam gerações. A promiscuidade dos sons, a repugnância dos cheiros, o desventrar de todas as intimidades. Os ganidos do que dói, o estretor de quando se morre, o soluçar baixinho os males de amor, tudo se sabe e nada se evita. De quando em vez vaga um cubículo, o último porque alguém se jogou pela janela abaixo. Morava ali, incógnito, há poucos meses. A renda, penso, ficou por pagar, a única mala que tinha como coisa sua, de tão velha, ninguém a quis.
23.1.06
Mayday, mayday
Às vezes é haver Deus, ou ir-se sentado no banco de trás, por ter chegado ao aeroporto no último minuto. Outras vezes teria sido bem melhor ter terminado tudo ali. Ficou o sobejo desta fotografia: os amigos espantam-se em larga ênfase, as tias falam em milagre, com uníssona devoção, e uma pessoa, mudando de assunto, vira a página, já esquecido, quase, de como foi.
22.1.06
A restituição dos afectos
Eu sei que é apenas um momento desta rua e um seu segmento. E sei que nesta vida por viver será um dia seguramente um hiato vazio na minha memória em erosão. Esta noite, porém, tendo por companhia esta intragável aguardente, e um salmão fumado, coisa que sempre detestei, talvez nem as saudades de casa me restituam os afectos. Acordei há pouco. Era noite. Aqui, aliás, é sempre noite. Somos quatro neste hotel. Um de nós nunca sai do quarto. Se já morreu, foi-se silenciosamente.17.1.06
A decência de ficar
Chegámos tarde com a noite presente em todos os escaninhos do lugar. Jantou-se ensonadamente, dormiu-se, enfim, um sono profundo. Ao amanhecer, ali estava, a memória presente em cada canto. Foi só o tempo de descer a rua. Esta fotografia mostra o que poderia ter sido viver decentemente a vida, decidindo ficar.16.1.06
O estreito dos Dardanelos
O desejo de não regressar! Amanhã podia expedir-se daqui uma carta e em duas linhas nem dizer porquê. Só quem viu uma anoitecer assim entende o que é o desejo de não voltar. Prolongar no tempo, restringir no espaço, permanecer aqui, por motivo indefinido e singular. Há na noite um odor embriagante, uma aura de milagre. Quando com o anoitecer definitivo, já nada se puder ver, sente-se ainda, adivinha-se sempre. 15.1.06
O raio verde
O momento é fugaz. A ciência explica-o pela refrangência da atmosfera. Mas é da excepção que nasce a maravilha. Exactamente no ponto, no lugar e no instante em que o ocaso coincide com o horizonte, surge, inesperado, o raio verde.Desaparecida a sensibilidade a todas as cores, ela fica, esperançosa, verde, a cor remascente, o símbolo renovado do dia de amanhã. Transidos de comoção, guardávamos em silêncio o segredo do que víramos, as mãos dadas, a alma a chorar. Hoje é só uma fotografia num álbum, a memória longínqua dos amores de verão.11.1.06
Bem-vindo, pois!

Há, nesta masmorra, um túnel que eu escavo diariamente ansiando por uma fuga. Começou por ser uma ideia, depois um sonho. Um dia acordei e era uma ambição, nas noites frequentes de insónia, um pesadelo. Há nesta ideia de escavar daqui a minha saída, uma ocupação contra a loucura, a esperança num dia depois. Esta manhã, porém, vazio de mim e ausente de tudo, aqui precisamente neste canto de confluência do onde durmo com a latrina em que nos tornámos, descobri a mágoa de um achado, o de que o túnel, esse subterrâneo nocturno cavado com as minhas mãos, rasgado com estas unhas e perseverado com os próprios dentes, na loucura demente de o ter feito, desembocara onde começara. Estava de volta aqui, muitos anos depois.
Uma ideia apenas

Às vezes é só mesmo a vertigem da ideia, a de uma doença como solução. Confinado a uma cama, recluso numa enfermaria, eis aí a justificação plausível para se poder parar. E, no entanto, quantas vezes nem esse favor se recebe da vida. Morre-se num dia ocupado, deixa-se o embaraço da agenda a meio, a vergonha de compromissos por cumprir, a fatalidade das responsabilidades por honrar. Aos amigos, mesmo, quantas vezes calha mal o dia do funeral. E o corpo, resto inerte do que houve, a aguardar numa capela de igreja porque é mais rápido assim, o serviço mortuário religioso está mais à mão. Às vezes é só mesmo uma ideia, mas a vida vertiginosa em que se vive, nem lhe dá tempo para viver, mortos que estamos e de cansaço.
9.1.06
Arco de Baúlhe

A linha marca o intervalo e a importância. Cheguei num pouca-terra interminável, o vento gelado a entrar por todas as frinchas de uma carruagem de museu, a locomotiva aos sacões. A arrastar-se, qual chiante carroça de bois, o comboio, vagaroso, entrou finalmente na diminuta estação. Um friso de casinhas, caiadas a branco, desfilam-me agora pela janela, uma sucessão de nomes conhecidos: «Senhoras», «Homens», o armazém dos sobressalentes e por fim, edifício principal, gabinete do chefe da estação e, eis, «Arco de Baúlhe», completo enfim o ritual familiar da entrada na gare. Cheguei. Não é, como da outra vez, o correio da noite, comboio fantasma do arranca e pára, viajante nocturno, visitante preguiçoso de todo o lugar ermo e apeadeiro vazio; nem o rápido das cinco, o «foguete» da minha infância, o «Sud Express» da minha juventude, o «Alfa» dos dias de hoje. É assim uma coisa intermédia, o comboio regional que vai dar entrada na linha número três. Desço, comigo apenas uma mala camba e um saco plástico amarfanhado, o resto do improvisado almoço. Meu pai espera-me na estação. «Estás mais magro», diz-me ao ver-me. Sorrio como a dizer que sim. Sem mais uma palavra seguimos calados, um ao lado do outro: não temos mais nada, nem mais ninguém de quem falar. Ele sabe que não tornaremos a ver-nos. «Voltas amanhã?», perguntou, como se o não soubesse, definitivamente.
A casa de chá

7.1.06
A misericórdia do esquecimento

Hoje a Natureza reocupou o seu lugar, por sobre a selvajaria dos homens: a água lavou o sangue, o silêncio calou os estrondos dos canhões. Reflectida na água, a ponte é mais do que o lugar, é o momento. Talvez nesta tarde gélida o mundo pudesse suspender-se por um instante, sobre o rio Drina e sua ponte. Para um homem só, debruçado no parapeito, olhando o ondulado tacteante da água, a História não passou por aqui. Quando souber da carnificina, fará por esquecê-la. A memória dói, os deuses misericordiosos abreviam a dor.
A beleza comovente

Primeiro, foi o homem que poderia ter sido o seu, a morrer-lhe, antes de que ao menos a ideia se tivesse concretizado. Depois, foram, inevitavelmente, os parentes, os amigos, os conhecidos. Ficou a casa. Com a idade, cada vez menos ágil, restou o quarto, enfim esta cama. À medida que o dinheiro rareava, foram-se indo as criadas. Restava eu, quando tinha tempo e nunca tinha tempo. Não fosse uma vizinha, haveria dias em que nem o almoço lhe chegaria. Encontraram-na um dia, oitenta anos de uma beleza comovente, uns olhos azuis límpidos de paz. Os cães ladravam furiosamente, correndo enlouquecidos, pela quinta. Um ar de tragédia e de morte povoava o lugar. Hoje é um hotel de charme. Indiferentes, esquecidos, tudo esquece, há quem se ame nesta cama, nesta mesma cama.
5.1.06
Uma mancha na consciência

Instalávamo-nos ali no Verão. Sentávamo-nos numa das mesas do fundo. Por eu ser muito pequeno, os criados traziam uma almofada para poder chegar à mesa. Lembro-me dos imensos guardanapos, densos de goma, os copos de pé alto, em cristal, os talheres pesados, com um toque de prata. Nesse tempo um jantar obrigava a «hors-d'oeuvre», dois pratos, fruta e doce. Ah! E sopa, e como eu odiava sopa. Uma vez, sem querer, porque nessa idade todas as asneiras são sem querer, e por detestar sopa de ervilhas, a má vontade em a comer deu num pingo a macular a alvíssima toalha. Ainda hoje ele me pesa na consciência. É numa das mesas do fundo deste magnífico Hotel das Termas. Olhando para a fotografia, acho que a vejo, nítida, vergonhosa, eterna, como se aquele mundo de excelência nunca mais tivesse sido perfeito, a partir daí.
4.1.06
O colar verde
3.1.06
2.1.06
O sol e a cor dos céus
Vim a este lugar, em nome da minha memória. E olho para isto, a fachada em ruínas, como hoje me vi, reflectido num vidro de uma montra. A vida encarrega-se, mesmo quando se não viveu, de marcar a sua passagem. Há, na parede lateral desta difícil tristeza, o reflexo do sol, carcomendo a cor, que nos destroços do que deixaram os dias de erosão e as noites de rapina, ainda era o momento celestial que restava.1.1.06
O universo de certezas
Combinou-se que seria ali. Por momentos julguei tê-la perdido, as ruas semelhantes, labirínticas, antigas, cruzando-se como num infinito de possibilidades enganadoras. Penso que, apesar de desorientado e incerto, cheguei muito antes da hora. Ao fundo, albergadas pelas árvores miúdas, umas mesas de ferro de uma improvisada esplanada, proporcionavam o lugar da espera. Estava sol e apetecia ficar prolongando o fruir da manhã. Chegou enfim, minutos depois do momento combinado, um ser de tal forma feminino que faria qualquer sentir-se homem. Por um segundo o universo imobilizou-se, o meu mundo de certezas vacilou. Aquele parecia o local e o tempo. Só que, afinal, nada era comigo. Na mesa do lado, precisamente a que ficava ao lado de mim, alguém se levantou, abraçando-a e seguindo, incertos mas decididos, esvairam-se no horizonte vazio do que me restou.
